Amor entre Cartola e Dona Zica vira enredo

Intendente Magalhães
Romulo Tesi
Escrito por Romulo Tesi

Cartola passará pelo menos duas vezes na Estrada Intendente Magalhães no Carnaval 2018, as duas no Grupo B. Além da Lins Imperial, que falará sobre o bar Zicartola, a Unidos do Jacarezinho vai levar para a avenida o enredo sobre a história de amor entre o compositor mangueirense e Dona Zica.

A escola anunciou nesta terça-feira o tema do desfile do próximo Carnaval, que ficará a cargo do carnavalesco Eduardo Gonçalves, que buscou na realidade atual do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio, a motivação para o enredo.

“Senti uma extrema necessidade de falar de amor. A comunidade do Jacarezinho toda hora aparece nas páginas policiais, e por isso quis falar de algo que fizesse as pessoas refletirem sobre o que é o amor, como é falar de amor num tempo de tanto caos, em uma comunidade com cotidiano tão conturbado”, disse Gonçalves ao Setor 1, citando os já conhecidos problemas de violência na comunidade.

(Para se ter uma ideia, segundo dados da PM divulgados pelo jornal Extra, a Unidade de Polícia Pacificadora do Jacarezinho lidera o ranking das UPPs mais conflagradas, com registro de 120 confrontos com tiroteios do início de 2016 até fevereiro deste ano)

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Batizado como “O cântico do poeta pelo amor de Euzébia” (nome de Zica), o enredo é inspirado nas declarações de amor de Cartola à sua musa. O historiador e antropólogo Vinícius Natal, que já trabalhou no Centro Cultural Cartola, usou manuscritos deixados pelo poeta da Mangueira para escrever uma carta, que será usada como sinopse e fio condutor do enredo.

“É algo meio rústico, mas ao mesmo tempo de uma simplicidade e leveza… O Cartola é um pouco essa mistura para mim”, diz Natal, que também diretor cultural da Unidos de Vila Isabel.

“Conversando com o Vinícius, chegamos à conclusão que a melhor forma era citar um casal, e nada mais propício que Cartola e Dona Zica, que foi um amor construído com verdades. Eles se conheceram muito jovens, se separaram pelas circunstâncias da vida e se encontraram já na terceira idade, com ela dando todo apoio à carreira dele”, conta Gonçalves, que assinará seu 11º desfile no Jacarezinho.

O desfile será dividido em três partes. A primeira contará como os dois se conheceram, na pré-adolescência. O meio da apresentação mostrará o reencontro, o casamento e a abertura do Zicartola. A parte final falará do legado que o casal deixou para a Mangueira e para o mundo.

“É um legado de prosperidade, cultural e da liderança negra femininia da Dona Zica em Mangueira. E todo o desfile será pontuado pelo amor”, conclui o carnavalesco.

Quer ver? Se programe: a Unidos do Jacarezinho é a 8ª escola a desfilar na Intendente Magalhães, na terça-feira de Carnaval, dia 13 de fevereiro. Por coincidência, logo depois desfila a Lins Imperial, com o enredo sobre o Zicartola. (Veja aqui a ordem dos desfiles dos grupos B, C, D e E)

Leia abaixo a carta/sinopse:

O Cântico do poeta pelo amor de Euzébia

Era como se eu pudesse parar o tempo.
O mundo, moinho por seu eixo, girava quase nulo.
Eu, ao altar, mudo. Você, em renda branca, lúcida, mas muito rosa do meu jardim.
Tão rosa que desacatou as azaleias para reinar. Calou os espinhos para embelezar.
Esvaziou os copos de leite. Tu reinavas.
Eu, ali, criança, cirandava você.
Nossa infância das bolas de gude, das pipas. Das latas d'água.
Das lavadeiras. Das cantigas de roda.
Naquele tempo, ainda éramos dois.
E eu, passarinho, passarinhava você.
A alvorada mais bela e tenra.
Por que não um ninho, mesmo que dentro de nós?
Por que não um bar–ra-co para remarmos sós?

O tempo passou.

Eu, sonhador, sempre sonhava você.
Mesmo sem te ver, sentia o conforto e a cumplicidade.
Fiz-me espinho ferido. Duvidei. Chorei.
Acovardei- me. Precisava de você… precisava de você…
Que chegou com o velho jeito manso.
Secando o pranto. Luz e acalanto.
Enrubesci. Vivi.
Cresci. Cedi.
Foi você quem tirou as nuvens da estrada.
Pediu licença para cantarmos em um novo tom.
Sonhamos e amamos juntos nossa Mangueira.
Fizemos, ali, uma linda família.
O Zicartola foi nosso enlace para o mundo.
Doces sabores que brotavam dos sons.
Sons que ecoavam a luta vermelha.
Vermelho que explodia de amor em nosso cúmplice olhar.

– Quer casar comigo?

Sim, e houve festança demais.
Chuva de arroz demais.
Samba, miudinho, na sola do sapato, demais.
Foi um ato. De amor, um ato.
Depois, saímos velozes dali para um lugar que nem nós saberíamos.
Éramos, enfim, um só.
A sua doçura e liderança.
Nossa poesia e canção.
Hoje o mundo é seu, Zica.
E eu sou seu, alegre pequena.
Enfim, o mundo é nosso.
Agora, dou-te um beijo.

Cartola

Texto e pesquisa: Vinícius Natal
Argumento de enredo: Eduardo Gonçalves e Vinícius Natal
Carnavalesco: Eduardo Gonçalves

Veja a logomarca do enredo:

Sobre o autor

Romulo Tesi

Romulo Tesi

Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Aluisio Machado, Beto Sem Braço e Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

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