Aniversariante, estádio do Vasco já recebeu desfiles das escolas de samba

Fora da avenida Rio de Janeiro
Romulo Tesi
Escrito por Romulo Tesi

(Foto: Marcelo Sadio/vasco.com.br)

Um dos maiores orgulhos da torcida do Vasco, São Januário (que oficialmente se chama mesmo Estádio Vasco da Gama) completa 90 anos de inauguração nesta sexta-feira. O que nem todos sabem é que a casa vascaína faz parte da história dos desfiles das escolas de samba do Rio.

Além do futebol, o estádio já foi palco de todo tipo de evento: apresentações de coral orfeônico (com 40 mil vozes) regido por Heitor Villa-Lobos e discursos históricos de Getúlio Vargas (a CLT não foi anunciada na Colina, como muitos pensam) e Luís Carlos Prestes (em um comício do PCB). Até os Menudos (ex-grupo do Rick Martin) já se apresentaram lá.

As escolas de samba já passaram três vezes pela Colina histórica. Em uma delas, valendo título, em desfile marcado por uma morte violenta. Nas outras duas, para “amistosos”.

O primeiro desfile, em dezembro de 1935, serviu para as escolas apresentarem seus sambas. Portela, Mangueira, Unidos da Tijuca, Paz e Amor e Lira do Amor – esta que, na década seguinte, abrigaria Paulo da Portela. Na preliminar, a bola rolou para o duelo entre Vasco e um combinado do bairro da Saúde, no centro do Rio. O Gigante da Colina venceu por 2 a 1.

Samba contra o Eixo

A segunda apresentação aconteceu em 1943, também sem valer título. Mas o curioso é que, um ano antes, não se sabia se haveria desfile. O motivo: a guerra.

Em 1942, o Brasil entrou, de fato, na Segunda Guerra Mundial. Ou pelo menos foi empurrado para dentro dela, após navios mercantes brasileiros serem afundados por submarinos alemães. O clima, segundo relatos, não era para festa. Logo, havia quem defendesse que as escolas não desfilassem. Ou mais: que não tivesse Carnaval. No entanto, as escolas ganharam o apoio da primeira-dama Darcy Vargas. E o ano teve dois desfiles.

O primeiro deles, em 24 de janeiro de 1943, sem competição, em benefício dos soldados, em São Januário. Treze escolas se apresentaram: Portela, Mangueira, Unidos da Tijuca, Império da Tijuca, Cada Ano Sai Melhor, União do Sampaio, Mocidade Louca de São Cristóvão, Unidos do Salgueiro, Azul e Branco e Depois Eu Digo – as últimas três que se fundiriam para criar o Acadêmicos do Salgueiro.

Citado por Sergio Cabral no livro “As escolas de samba do Rio de Janeiro”, o samba com que a Portela desfilou em São Januário, de Nilson e Alvaiade, “declarava guerra” ao inimigo do Brasil: o Eixo (Alemanha, Japão e Itália). A letra soava como um convite ao alistamento.

Brasil! Oh meu Brasil!
Unidas nações aliadas
Para o front eu vou de coração
Abaixo o Eixo
Eles amolecem o queixo
A vitória está em nossa mão

No desfile pra valer, organizado pela UNE (União Nacional dos Estudantes) e pela Liga de Defesa Nacional (portanto sem apoio das autoridades), na Avenida Rio Branco, deu Portela, com o enredo “Carnaval de Guerra”.

Confusão e morte

Finalmente em 1945, São Januário sediou o desfile oficial. O estádio serviu de palco para o pentacampeonato portelense, com o enredo “Brasil Glorioso” e samba de Boaventura dos Santos, o Ventura, de acordo com o Portelaweb.

Ó meu Brasil glorioso
És belo, és forte, um colosso
É rico pela natureza
Eu nunca vi tanta beleza
Foi denominado terra de Santa Cruz
Ó pátria amada, terra adorada, terra de luz

Nessas mal traçadas rimas
Quero homenagear
Este meu torrão natal
És rico, és belo, és forte
E por isso és varonil
Ó pátria amada, terra adorada, viva o Brasil

Ouça o samba aqui (a partir de 6min 45s):

No entanto, os desfiles ficaram marcado por confusão e tragédia. Uma briga entre componentes da Depois Eu Digo e Cada Ano Sai Melhor, do São Carlos, acabou com uma pessoa morta e mais de vinte feridas.

Vítima de um revide de um assédio, que, dizem, ele não foi o autor, o ritmista e compositor da Depois Eu Digo, José Matinadas, de 21 anos, morreu com uma facada no peito.

Em entrevista publicada no livro de Cabral, Duduca, parceiro de Matinadas no samba da escola naquele ano, conta que tudo começou quando Levi, mestre-sala, investiu para tentar seduzir uma porta-bandeira da Cada Ano Sai Melhor em uma festa no Salgueiro. Diante da negativa, Levi escapou tentando se passar por Matinadas, gritando “eu sou o Matinadas”. No dia do desfile, a turma da Cada Ano Sai Melhor foi para São Januário com sede de vingança, querendo saber quem era o tal Matinadas.

Duduca do Salgueiro – Reprodução/Youtube

“Um garoto do Salgueiro apontou: ‘É aquele ali’. O cara não conversou: enfiou o ferro. Matinadas morreu sem saber a razão”, contou Duduca no livro. Ele narrou assim os minutos finais de Matinadas em São Januário:

“(…) Corri (…) e dei de cara com meu amigo deitado no chão. Falei com ele, ele tentou falar comigo, mas botou uma golfada de sangue pela boca. Quando levantei a sua roupa, vi um furinho no peito dele, quase não saía sangue. Vi logo que ia morrer, pois estava com uma hemorragia interna. Passaram poucos minutos e ele morreu” 

No revide, um outro amigo de Matinadas teria ferido vários integrantes da Cada Ano Sai Melhor.

O mestre-sala Acelino dos Santos, o lendário Bicho Novo, foi preso pela polícia, acusado do crime. Depois de algum tempo, Bicho Novo conseguiu provar sua inocência e ser solto. A investigação concluiu que o sambista sequer estava em São Januário.

Abaixo, a letra do samba de Duduca e Matinadas, também de exaltação ao Brasil, de tema “bélico-patriota” e com trechos como “Não importamos morrer, a vitória é certa”. “Era esquisito”, admitia o própria Duduca.

Brasil, terra de liberdade
Berço da felicidade
Onde existe a tranqüilidade
Meu Brasil
Jamais houve em outro tempo
Como há neste momento
E saber que seus filhos morrem
Para lhe defender
Oh! Meu Brasil!
Não importamos de morrer
A vitória é certa
Mas continuamos alertas
Oh! Meu Brasil!
Para vencer
É preciso ter prazer
De matar ou de morrer

Sobre o autor

Romulo Tesi

Romulo Tesi

Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Aluisio Machado, Beto Sem Braço e Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

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