Em tempos de restrição, Mangueira se posiciona e compra briga

Grupo Especial - Rio Mangueira Opinião

Mangueira em 2011 – Foto: Nelson Perez/Riotur

O prefeito Marcelo Crivella anunciou em meados de junho que vai cortar 50% das verbas das escolas de samba. Pouco depois, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus decidiu submeter a autorização para realização de qualquer evento no Rio de Janeiro ao seu gabinete. “Atividade econômica, cultural, esportiva, recreativa, musical, artística, expositiva, cívica, comemorativa, social, religiosa ou política, com fins lucrativos ou não”, diz o texto do decreto.

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Em meio a esse cerco, a Estação Primeira de Mangueira decidiu se posicionar.

Nada de protestos marcados pelo Facebook, manifestos publicados em redes sociais ou petições na web. A escola vai, em 2018, zombar das decisões do prefeito. E o fará na única arena possível: a Passarela Professor Darcy Ribeiro, a Marquês de Sapucaí.

Num ato de coragem, a Velha Manga, com uma ideia do inventivo carnavalesco Leandro Vieira, levará para o Sambódromo um enredo que servirá como uma resposta direta, sem filtros, a Crivella. Mas com o convite para o povo brincar, “com dinheiro ou sem dinheiro”. Com milhão ou sem milhão, a ordem é samba, marchinha, ciranda, candomblé, umbanda e tudo mais que é do povo, de todos eles. Ordem, aliás, que soa subversiva em tempos de tanta restrição.

A importância do gesto mangueirense é tão grande que é impossível mensurá-lo agora. O Carnaval, pelo menos nos últimos anos, mostrou-se sem tanta disposição para polêmicas. (Vale lembrar que a prefeitura ainda banca parte da festa, cumprindo seu papel previsto no artigo 215 da Constituição: o Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais) Há casos isolados, algumas pelejas esporádicas, com a da Imperatriz em 2017. Mas as circunstâncias levaram a Mangueira, que poucas vezes se rebelou, a se lançar nessa briga. Se vai sozinha ou ganhará a companhia das corimãs, os próximos meses dirão. Seja como for, a Verde-e-Rosa já se coloca na comissão de frente.

Mangueira 2017 – Fat Press/Liesa

Proposta lançada, tudo que virá a partir de agora pode ser até mais importante que os 75 minutos de desfile em fevereiro de 2018. (Bate três vezes na madeira, mas) Se abrir um clarão em frente ao Módulo 3, se um vento atrapalhar a dança da porta-bandeira ou se a luz de um carro apagar, ainda assim a Mangueira já terá cumprido a missão de soltar seu grito libertário na mais politizada das festas brasileiras. Poucas instituições do país contam estatura suficiente para isso. E a Mangueira é uma das maiores do Brasil. Sua gente, de Cartola a Leandro Vieira, está na parte funda da piscina.

Na comunidade do samba, há quem defenda que a Mangueira feche todo Carnaval. Em 2018, seria o desfecho perfeito de um ano em que as escolas precisam se reinventar. Com dinheiro ou sem dinheiro.

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Entenda o caso do corte de verba

Crivella anunciou que pretende cortar em 50% a verba destinada às escolas de samba para investir em creches. O valor em 2017 foi de R$ 24 milhões, sendo R$ 2 milhões para cada agremiação. Como em 2018 serão 13 escolas no Grupo Especial, a expectativa era que o montante chegasse a R$ 26 milhões. Mas, conforme a Riotur (Empresa Municipal de Turismo do Rio de Janeiro), responsável por organizar a festa, já confirmou, o valor ficará mesmo em R$ 13 milhões.

A Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba) anunciou que, sem os R$ 13 milhões, os desfiles ficam inviáveis em 2018, e decidiu suspender as apresentações até que as partes cheguem a um acordo. A entidade espera conseguir um encontro com o prefeito, algo que vem tentando há meses, sem sucesso.

A Riotur disse, em nota, que o Carnaval está garantido e afirmou que vai buscar na iniciativa provada os recursos para as escolas. Mas confirma que as creches são prioridade.

Em resposta, sambistas realizaram um protesto. O grupo se concentrou em frente ao edifício administrativo da prefeitura, na Cidade Nova, e caminhou até a Marquês de Sapucaí.

O prefeito de Duque de Caxias, Washington Reis, se prontificou a ajudar e ofereceu levar os desfiles para a cidade da Baixada Fluminense. “A festa traz receita, movimenta a economia. Tem dinheiro para tudo. Se puder levar a Sapucaí para Caxias, eu banco. Vai dar lucro, traz turistas, é importante para a cidade”, disse Reis ao jornal Extra.

No dia 28 de junho, Crivella recebeu as escolas de samba e ficou decidido que haverá desfile em 2018.

Sobre o autor

Romulo Tesi

Romulo Tesi

Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

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