Mangueira anuncia enredo-resposta a Crivella e manda o povo brincar Carnaval sem dinheiro

Grupo Especial - Rio Mangueira
Romulo Tesi
Escrito por Romulo Tesi

Dinheiro não será problema para a Mangueira em 2018. Aliás, a falta dele, após o corte de 50% das verba para as escolas de samba, virou enredo na Velha Manga. Nesta quinta-feira, o carnavalesco da agremiação, Leandro Vieira, anunciou o tema do desfile da Verde-e-Rosa para o próximo Carnaval, que pretende ser uma ordem para o povo brincar e mandar um recado para o prefeito Marcelo Crivella.

Batizado como “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco”, o enredo foi inspirado no atual momento das escolas, alvo de um ataque por parte da administração pública. A ideia é, segundo Vieira, é olhar para dentro das escolas e fazer um questionamento sobre o papel delas na sociedade. “(A ideia é) Enfiar o dedo na ferida e se perguntar por que não somos mais tão amados?”, declarou.

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“É uma resposta bem direta ao prefeito e aponta para a construção de um Carnaval de caráter festivo, renovado, guerrilheiro, não apenas do samba e das escolas, mas de todas as manifestações carnavalescas”, explicou Vieira em entrevista ao jornalista Leandro Bruno, do jornal Extra.

“O principal, para mim, não é nem o corte de 50%. O principal é a tentativa (de Crivella) de demonizar os desfiles, as atividades culturais para os quais a prefeitura dá algum tipo de suporte financeiro. Ele coloca as escolas de um lado e as crianças da creche de outro. Acaba se alinhando a ‘felicianos’ e ‘bolsonaros’, colocando de um lado os gays e do outro a família, como se não pudesse haver uma interseção disso”, afirmou, fazendo referência aos deputados conservadores Marco Feliciano e Jair Bolsonaro.

A sinopse será divulgada na próxima terça-feira, às 19h, na Vila Olímpica da Mangueira.

“Eu brinco”

Vieira disse que o enredo ainda está “fresco” na sua cabeça, e que ainda vai iniciar as pesquisas, mas adiantou que pretende colocar na Sapucaí elementos que normalmente não passam pela avenida. Cordões, por exemplo, devem estar no desfile.

“Tem um pouco de ‘Bumbum Paticumbum Prugurundum'”, admitiu Vieira, citando o célebre desfile do Império Serrano de 1982, quando a escola fez um crítica aos rumos que o Carnaval estava tomando.

O título foi retirado da letra da marchinha “Eu brinco”, de Pedro Caetano e Claudionor Cruz, de 1944. Naquele ano, como agora, os desfiles estiveram ameaçados por uma suposta falta de clima e de dinheiro, com o mundo e o próprio Brasil envolvido na Segunda Guerra Mundial. A mesma música foi usada no enredo de 2004 da União da Ilha, sobre as chanchadas. (Ouça abaixo)

Hélio Oiticica

A Mangueira esteve perto de ter um enredo sobre o artista plástico Helio Oiticica. A ideia foi proposta na escola, que conseguiu a autorização para captar, via Lei Lei Rouanet, R$ 7 milhões. Mas nenhuma empresa se interessou pelo projeto.

Vieira admitiu que o tema era de seu interesse, e lembrou da ligação do artista com a Mangueira.

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Entenda o caso do corte de verba

Crivella anunciou que pretende cortar em 50% a verba destinada às escolas de samba para investir em creches. O valor em 2017 foi de R$ 24 milhões, sendo R$ 2 milhões para cada agremiação. Como em 2018 serão 13 escolas no Grupo Especial, a expectativa era que o montante chegasse a R$ 26 milhões. Mas, conforme a Riotur (Empresa Municipal de Turismo do Rio de Janeiro), responsável por organizar a festa, já confirmou, o valor ficará mesmo em R$ 13 milhões.

A Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba) anunciou que, sem os R$ 13 milhões, os desfiles ficam inviáveis em 2018, e decidiu suspender as apresentações até que as partes cheguem a um acordo. A entidade espera conseguir um encontro com o prefeito, algo que vem tentando há meses, sem sucesso.

A Riotur disse, em nota, que o Carnaval está garantido e afirmou que vai buscar na iniciativa provada os recursos para as escolas. Mas confirma que as creches são prioridade.

Em resposta, sambistas realizaram um protesto. O grupo se concentrou em frente ao edifício administrativo da prefeitura, na Cidade Nova, e caminhou até a Marquês de Sapucaí.

O prefeito de Duque de Caxias, Washington Reis, se prontificou a ajudar e ofereceu levar os desfiles para a cidade da Baixada Fluminense. “A festa traz receita, movimenta a economia. Tem dinheiro para tudo. Se puder levar a Sapucaí para Caxias, eu banco. Vai dar lucro, traz turistas, é importante para a cidade”, disse Reis ao jornal Extra.

No dia 28 de junho, Crivella recebeu as escolas de samba e ficou decidido que haverá desfile em 2018.

Sobre o autor

Romulo Tesi

Romulo Tesi

Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

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