‘Os desfiles das escolas de samba ficaram caretas’, diz carnavalesco da Mangueira

Grupo Especial - Rio Mangueira

Leandro Vieira, carnavalesco da Mangueira – Foto: Leo Queiroz/Site oficial da Mangueira

Pamplona, Chico, Darcy, Lage, Rosa, Bandeira e Suassuna. Essa é a turma que fez a cabeça de Leandro Vieira. A mesma cabeça de onde saiu o enredo mais falado, inventivo, esperado e – por que não? – necessário do Carnaval do Rio de Janeiro em 2018. O carnavalesco da Mangueira tirou justamente da falta de dinheiro – ou melhor, do corte de verba imposto pelo prefeito Marcelo Crivella – a ideia de levar para a Sapucaí um enredo que não só serve de resposta ao alcaide-bispo, mas que soa como uma petulância em tempos de restrição: “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco”.

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Para Leandro, maior revelação do Carnaval em quase 15 anos, é a chance de as escolas, ou pelo menos a Velha Manga, se reaproximar de quem mantém essa pipa do samba no alto: o povo.

“Os desfiles ficaram caretas. Espero que diante dessa situação política, as escolas voltem a tocar nesses assuntos. Quanto mais afinado com a atualidade, mais vamos ter condições de dialogar com a sociedade”, diz o vascaíno (moderado) Leandro em entrevista ao Setor 1.

“As escolas de samba entraram numa lógica comercial que as distanciou das questões populares. E, naturalmente, a população procurou outras maneiras de brincar. Essa lógica comercial é excludente, de ingressos caros, de enredos burocráticos. Isso foi fazendo com que as escolas perdessem força nas comunidades”, declara o carnavalesco, para quem a mensagem, às vezes, é mais importante que levar o título na Quarta-Feira de Cinzas.

“Dentro do atual cenário das escolas de samba, eu já considero uma vitória a possibilidade de uma escola como a Mangueira levar essa discussão para o Carnaval de 2018”, afirma. Então, que a Mangueira encomende a cerveja.

Mangueira 2017 – Fat Press/Liesa

Leia a entrevista na íntegra:

O que achou da posição de desfile da Mangueira (a escola será a sexta e penúltima a desfilar no domingo; veja a ordem aqui)?
Aqui no Rio existe uma crença de que escola campeã não sai no domingo. Acho que não existe dia melhor para ser campeão, tem carnaval melhor para ganhar o dia. Se só se ganha Carnaval na segunda-feira, era melhor que as escolas de domingo nem desfilassem.

Havia uma torcida para a Mangueira fechar o Carnaval, até pelo enredo…
A escola gosta de fechar Carnaval. Tem corpo, história e tradição para isso. Não por esse enredo, mas qualquer Carnaval. Garante a Marquês de Sapucaí lotada até o final.

O Carnaval 2018 terá pelo menos três enredos mais engajados: além da Mangueira, Tuiuti vai falar sobre a Lei Áurea e Portela vai tocar em xenofobia e intolerância. Esse Carnaval vai ser diferente? É a situação do País que está fornecendo bons enredos?
Vai ser diferente da mesmice que virou o Carnaval. Na história, as escolas já fizeram muito isso (ter postura política), e perderam muito quando deixaram de fazer. As escolas já foram isso. Os desfiles ficaram caretas. Se deixou de falar dessas coisas. Espero que diante dessa situação política, as escolas voltem a tocar nesses assuntos. Quanto mais afinado com a atualidade, mais vamos ter condições de dialogar com a sociedade.

Você acha que isso pode se tornar uma tendência?
Não acredito. Não virou tendência nem esse ano…

É possível fazer Carnaval sem o dinheiro da subvenção da Prefeitura?
Esse Carnaval que a gente conhece, que se consagrou, de padrão internacional, não se faz sem dinheiro. Outras formas, sim. Pode até ser repensado, mas, com esse padrão, não se faz. O dinheiro oficial dá uma base unificada à qualidade do espetáculo. Porque ganha quem tem patrono e quem não tem. Esse dinheiro deixa as escolas com o mínimo de igualdade. Para a Mangueira, que não tem patrono, nem bicheiro, nem patrocinador, é um dinheiro que faz muita falta.

As escolas devem se preparar para viver sem esse dinheiro oficial ou é papel do Estado manter esse investimento?
É papel do Estado. Ele tem que ser fomentador da cultura. Está na Constituição. Só que desfile de escola de samba tem que ser visto como cultura. Não adianta olhar como festa. Não é festa, é cultura. É uma manifestação cultural carnavalesca do Rio de Janeiro que representa a consagração e a consolidação de uma série de dados antropológicos e culturais ligados à resistência, à cultura negra, à formação da pluralidade da cidade, ligada à ocupação da cidade. Uma manifestação importantíssima. É cultura pura. Deve ser apoiado, sim, pelos órgãos governamentais, em todas as esferas.

Maria Bethânia, homenageada que valeu o título da Mangueira em 2016, com Leandro Vieira ao fundo – Tata Barreto/Riotur

Recentemente, a Rachel Valença escreveu um artigo em que ela questionou “por que não somos mais tão amados?”, referindo-se às escolas de samba? Você tem uma resposta para essa pergunta?
A minha resposta é que as escolas de samba entraram numa lógica comercial que as distanciou das questões populares. E, naturalmente, a população procurou outras maneiras de brincar. Essa lógica comercial é excludente, de ingressos caros, de enredos burocráticos. Isso foi fazendo com que as escolas perdessem força nas comunidades.

Em uma entrevista que fiz com o presidente da Portela, Luís Carlos Magalhães, ele disse que o mais importante para ele era ver a escola “jogando bonito”, com um grande enredo, bons sambas, bonitas, com uma mensagem. O enredo da Mangueira tem uma mensagem importante, de contestação, e parece reunir os anseios da comunidade sambista. Se chegar na Quarta-Feira de Cinzas sem título, você acha que sua missão terá sido cumprida ainda sem levar o campeonato?
Quem faz Carnaval pensando simplesmente em ganhar já entra perdendo muito. Porque para ganhar às vezes você tem que abrir mão de algumas coisas que você acredita. Com esse meu enredo, dentro do atual cenário das escolas de samba, eu já considero uma vitória a possibilidade de uma escola como a Mangueira levar essa discussão para o Carnaval de 2018. Eu, particularmente, tenho muito mais apreço a carnavais que se consagraram, mas que não foram campeões. Existe uma série de carnavais que poderiam ser campeões e não foram, e eu adoro.

Você pode citar alguns?
Os maiores carnavais do Joãosinho Trinta não se consagraram campeões. “Ratos e Urubus” (Beija-Flor 1989 foi vice, perdendo para a Imperatriz de “Liberdade, Liberdade”) e “O mundo é uma bola” (Beija-Flor 1986), por exemplo. “Candaces”, do Renato Lage (Salgueiro 2007) é maravilhoso, e não foi campeão. Ser campeão é bom, mas não ser campeão, às vezes pela proposta que se leva, pode ser mais interessante do que o campeonato.

O presidente da Mangueira, Chiquinho, é uma figura da política (deputado estadual no Rio). Como foi para ele aceitar uma ideia de enredo como essa?
Ele aceitou de pronto. O presidente separa muito bem o político do cara que preside uma instituição cultural. A instituição cultural Mangueira tem um discurso alinhado com o pensamento do povo, com as coisas do povo. E o presidente, como um cara do samba, reconhece a importância do discurso daquilo que ele vai levar para a avenida.

Mangueira 2017, com a escultura Cristo/Oxalá, um dos grandes momentos do Carnaval, em primeiro plano. Leandro tem liberdade para criar – Fernando Grilli/Riotur

Ele te deu liberdade total para criar?
Eu, graças a Deus, sempre trabalhei com muita liberdade, mas eu conquistei essa liberdade na Mangueira. Vim de uma forma muita inusitada, alvo de questionamentos e desconfianças, mas o tempo, com esses três anos de casa, fizeram com que eu conquistasse a confiança do mangueirense e da diretoria da Mangueira. (Leandro foi campeã logo na sua estreia na Mangueira, em 2016, com o enredo sobre Maria Bethânia). Hoje eu posso dizer que sou um carnavalesco com liberdade plena.

Quais são suas maiores influências no Carnaval?
Fernando Pamplona, Rosa Magalhães e Renato Lage.

E fora do Carnaval?
Os grandes pensadores da cultura brasileira, que moldam minha cabeça: Darcy Ribeiro, Ariano Suassuna, Chico Buarque de Holanda e Manuel Bandeira.

E qual é o enredo dos seus sonhos, que você ainda quer levar para a Sapucaí?
Enredo dos sonhos é difícil pensar. Não sei, mas o meu planejamento dos sonhos é eu poder todo ano falar daquilo que eu acredito. Eu sei que uma hora não vai ser possível, uma hora eu vou tropeçar numa pedra no caminho. Porque ninguém caminha num caminho sem pedras. Mas o sonho é poder continuar falando das coisas que acredito e propondo os enredos que reforçam e podem contribuir para a afirmação da soberania da cultura brasileira.

Leandro Viera ao lado de um de seus influenciadores, Chico Buarque

Sobre o autor

Romulo Tesi

Romulo Tesi

Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

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