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Dominguinhos foi um dos últimos representantes de uma era de ouro

Dominguinhos do Estácio canta na Viradouro – Foto: Viradouro

Por Bruno Filippo*

A semana começa novamente de luto pela perda de um sambista. Dominguinhos do Estácio, que também foi da Viradouro e da Imperatriz, vitorioso nas três, morreu na madrugada desta segunda, aos 79 anos, de hemorragia cerebral, depois de tempos enfrentando problemas de saúde. O que não o impediu de estar no carro de som da Viradouro auxiliando o intérprete principal, Zé Paulo, no último Carnaval antes da pandemia, o de 2020, em que a escola de Niterói foi campeã. Saiu da Sapucaí direto para o hospital: teve um infarto ao fim do desfile.

Dominguinhos do Estácio era um dos últimos representantes da geração que, aproveitando-se da apropriação do samba-enredo pela indústria fonográfica, e consequentemente da exposição em rádio e televisão, marcou o Carnaval ao gerar identificação entre suas vozes marcantes e as escolas.

Agora, com sua morte, Neguinho da Beija-Flor torna-se o último representante dessa era, ladeado por Quinho, um pouco menos representativo.

O primeiro LP das escolas de samba data de 1968; antes, cantores famosos gravavam sambas que faziam sucesso no desfile, mas não havia uma obra que, lançada antes, reunisse os sambas-enredo que as agremiações cantariam na avenida. Isso passou a acontecer no momento de ascensão das escolas de samba perante a classe média e a mídia.

Foi nas décadas de 1970 e 1980 que a vendagem e a execução dos sambas-enredo paulatinamente foi crescendo, até atingir o ápice no fim dos anos 80. Sucessos populares, vozes de Jamelão, Neguinho, Dominguinhos, Aroldo Melodia, Quinho, Roberto Ribeiro, Carlinhos de Pilares, Dedé da Portela, Silvinho, Rico Medeiros, Quinzinho e alguns outros cantaram em uma época de ouro.

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Não que hoje não haja bons puxadores; mas, aos observadores mais atentos, é fácil perceber que não há um conjunto de vozes capaz de, ao mesmo tempo, tanta a identificação, ao que se soma o refluxo do samba-enredo como produto da indústria cultural, o que relega talentos individuais a um nicho de quem acompanha carnaval com atenção o ano inteiro.

*Bruno Filippo é jornalista e sociólogo

Romulo Tesi

Romulo Tesi Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Aluisio Machado, Beto Sem Braço e Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

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