Setor 1

Racha entre ligas ameaça desfiles da Série B do Carnaval do Rio

Desfile na Intendente Magalhães – Romulo Tesi

Um impasse está instalado na Série B do Carnaval do Rio de Janeiro. O principal grupo de acesso aos desfiles no Sambódromo rachou em junho deste ano, no ápice de uma crise silenciosa que, aos poucos, colocou em lados opostos a Liga Independente das Escolas de Samba do Brasil (Liesb) e a recém-fundada Liga Independente Verdadeira Raízes das Escolas de Samba (Livres). A solução, porém, ainda parece distante – e pode depender ainda da prefeitura.

A Livres, formada por oito escolas de samba, alega uma série de irregularidades e cogita acionar na Justiça a Liesb, que por sua vez se defende das acusações. Mais: conta que as dissidentes desistam da ideia e voltem a integrar o grupo.

“Elas participaram do sorteio [da ordem dos desfile], caíram em posições de desfile cobiçadas. A vaga delas está lá. Não pediram desfiliação da Liesb, não revogaram a procuração que a liga tem deles. Logo continuam fazendo parte da Liesb”, declara o presidente da liga, Clayton Ferreira, ao Setor 1.

Do outro lado, a Livres se mostra irredutível. “Não há briga, há justiça. Não cogito conversa, porque já passou do tempo de conversar e das coisas mudarem. A gente vai desfilar pela Livres, e não pela Liesb”, decreta Raphaela Nascimento, presidente da liga dissidente, em entrevista ao blog. As agremiações da Livres entendem também que não fazem mais parte da Liesb por não terem assinado a pauta da apuração, por não terem acesso às justificativas das notas dos desfiles.

Raphaela Nascimento e Clayton Ferreira, líderes da Livres e da Liesb, respectivamente – Fotos: Reprodução/Facebook e Divulgação

Contexto

Nos bastidores da comunidade do samba, a insatisfação de algumas escolas que desfilam nos grupos organizados pela Liesb já era motivo de conversas discretas e tratada como tabu. A falta de transparência era a principal reclamação.

Em outra frente, um grupo de escolas insatisfeitas com a Lierj (Série A), e próximas às lideranças da Liesb, iniciou uma mobilização para tirar o então presidente Renato Marins, o Thor, do cargo de presidente.

Até que, em 22 de abril deste ano, no auge da crise instalada pela disputa de poder na Lierj, a entidade tornou públicas definitivamente as reclamações de parte das agremiações em relação à administração da Liesb.

Desfile do Arranco na Intendente Magalhães em 2013 – Alexandre Macieira/Riotur

Em tom de denúncia, a Lierj colocou em dúvida os resultados de alguns Carnavais da Série B. Além disso, a entidade mencionou um suposto controle de várias agremiações por uma mesma pessoa. A nota não está mais disponível no site da Lierj, conforme o blog atestou em acesso no dia 15 de agosto.

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A crise, contornada na Série A com a renúncia de Thor e posse da nova diretoria, ligada à Liesb, “desceu” para a Série B. Em junho, Tradição, União do Parque Curicica, Vizinha Faladeira, Engenho da Rainha, Alegria da Zona Sul, Unidos de Lucas, Arame de Ricardo e Siri de Ramos anunciaram a criação da Livres, com reivindicações que coincidem parcialmente com o protesto do comunicado da Lierj.

(Nota: Na noite da última quinta-feira, 15, a Caprichosos de Pilares, atualmente na Série E (última divisão), publicou uma enigmática mensagem nas redes sociais divulgando que a escola “é Grupo B”, alimentando rumores de uma possível filiação à Livres. Procuradas pelo blog, nem escola, nem liga quiseram comentar o assunto.)

Reação

Pouco depois, a Liesb, sob novo comando, fez uma mudança radical, formando um grande Grupo Especial da Intendente Magalhães – via no bairro do Campinho transformada em passarela do samba no Carnaval. Fazem parte dele 26 escolas – incluindo as oito rebeldes. Na prática, trata-se da fusão das séries B e C – e o D passou a ser chamado de Grupo de Acesso.

O presidente da Liesb nega que a união dos grupos seja uma resposta à Livres, e afirma que a intenção é deixar a Série B mais forte e os desfiles, mais atraentes para eventuais patrocinadores. Ele, porém, adianta que caso os dissidentes desejem mudanças na organização dos desfiles, terão que colocar os temas na pauta da assembleia geral da liga.

“Num universo de 26 eles são oito. Se a maioria decidir por aquilo que eles acham que é correto, vai ser colocado no regulamento”, diz Ferreira.

Justificativas

A Livres coloca em dúvida a lisura do resultado dos desfiles da Liesb, e reclama da ausência de divulgação das justificativas das notas.

A Liesb, por sua vez, defende-se afirmando que as justificativas existem, mas precisam ser requeridas na sede da liga, mediante entrega de pedido por escrito. A entrega, diz o presidente, é feita na hora. No entanto, segundo Ferreira, uma escola só pode pedir as justificativa das próprias notas. Raphaela vai mais longe: a dirigente afirma que nem a solicitação formal é tão simples de ser atendida.

“Eles dão prazo de 15 dias, mas ficam até dois meses e a escola não vai conseguir [as justificativas]. Eu quero ver a justificativa da escola que ficou na minha frente pra ver onde eu tenho que melhorar”, declara a líder da Livres.

Cena clássica dos desfiles na Intendente: foliões invadem pista entre as apresentações – Alexandre Macieira/Riotur

“O regulamento foi aprovado por eles”, diz Ferreira, com ênfase na aprovação. “Alguma escola requereu [as justificativas]? Não. Outras sim? Sim. Tiveram? Sim. As justificativas existem e estão na sede da Liesb”, garante o dirigente.

No regulamento de 2019 da Liesb, fornecido ao blog pela assessoria de comunicação da Livres, não há menção às justificativas.

Dinheiro

Outra reclamação da Livres é em relação à divisão da verba repassada pela prefeitura do Rio de Janeiro.

Conforme publicado no Diário Oficial, a gestão Marcelo Crivella destinou R$ 618.257 à Série B. Segundo Raphaela, o montante não foi dividido de forma igualitária entre as agremiações.

“Tem escola que recebe nada; outras, R$ 35 mil, algumas R$ 15 mil…”, relata a dirigente, que afirma não ter recebido resposta da Liesb sobre a diferença.

Articulação e Sapucaí

Na tabuleiro da Série B, as partes se articulam em jogadas que incluem interlocução com partes interessadas e encontros com autoridades – até mesmo com o governador do Rio, Wilson Witzel.

A eleição de Witzel foi vista como algo messiânica por parte da comunidade do samba. No início do ano, após mais um corte de verba promovido por Crivella, as escolas foram salvas pela injeção de R$ 15 milhões – patrocínio da Light para as agremiações do Grupo Especial, via abatimento do pagamento de ICMS da empresa ao estado.

Em busca de apoio institucional, a Livres conseguiu a primeira aproximação com Witzel. Numa reunião em fins de julho, o grupo conseguiu inclusive fazer com que o governador vestisse a camisa da liga. A principal reivindicação levada ao governador, porém, mexeria de vez com a configuração do Carnaval carioca: promover a volta da Série B (a terceira divisão na prática) ao Sambódromo.

Grande Rio 2018, na Sapucaí – Gabriel Monteiro/Riotur

Atualmente, entre a sexta-feira de Carnaval e o domingo pós-Desfile das Campeãs, a Marquês de Sapucaí é ocupada quase todos os dias. Sobram a quinta e sexta-feira após os dias de folia e um domingo. Isso em tese.

Para a Série B retornar ao posto que ocupou no passado, a terça-feira de Carnaval, os desfiles das escolas de samba mirins teriam que ser deslocados. E aí começam os problemas.

Ferreira enumera, dia por dia, os empecilhos. Mas enfatiza as dificuldades da realização das apresentações na terça das crianças.

“Eu não me sentiria à vontade de acabar com os desfiles das escolas mirins”, diz Ferreira, contrário à ideia.

“Não haveria verba suficiente para fazer Carnaval que a avenida pede. Teria que aumentar carro, o número de componentes… Tudo isso custa dinheiro”, declara o presidente da Liesb, que cita ainda os problemas com relação ao horário e o início da montagem da estrutura para a apuração, na Quarta-Feira de Cinzas.

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Segundo Raphaela, Witzel prometeu estudar o assunto. “Ele disse que precisa consultar órgãos públicos para ver questões de logística, além da iniciativa privada… O governador vai nos chamar para resolver o dia e outras coisas”, diz a líder, otimista. “Ele viu com bons olhos”, garante.

Mirins

Parte interessada no assunto, a Associação das Escolas de Samba Mirins do Rio de Janeiro (Aesm-Rio) trata de manter diálogo com os dois lados. Mas, a princípio, não abre mão do Sambódromo na terça-feira.

“Não tem como tirar a gente”, decreta Edson Marinho, presidente da Aesm-Rio, em contato com o blog. Ele cita a segurança para as crianças como impeditivo para tirar os desfiles mirins do Sambódromo.

“Quem vai assumir a responsabilidade se acontecer um acidente com uma criança? No Sambódromo, a gente herda a infraestrutura do Grupo Especial, com tudo fechado”, questiona Marinho, que descarta fazer os desfiles mais cedo, o que, em tese, liberaria a noite para as escolas da Livres. Tudo por causa do sol e do forte calor carioca da época de Carnaval.

Os desfiles mirins já tiveram 40 mil crianças, de acordo com Marinho. Atualmente, após os cortes de verba da prefeitura, esse número caiu para 20 mil, mas a expectativa para 2020 é tentar levar 25 mil pequenos desfilantes. Para a Sapucaí, o que é inegociável para a Aesm. Marinho se diz, inclusive, respaldado pela Justiça.

Uma portaria de 2004 (nº 10), assinada pelo então juiz titular da 1ª Vara da Infância e da Juventude (atualmente também do Idoso), Siro Darlan, definiu uma série de regras para a realização dos desfiles. O texto, enviado ao blog pela assessoria do Tribunal de Justiça do Rio, não cita o Sambódromo como local obrigatório das apresentações, mas menciona as vias do entorno da Marquês de Sapucaí que devem ser fechadas para o trânsito, incluindo a avenida Presidente Vargas.

Ritmista mirim da Mangueira do Amanhã, no Carnaval de 2017 – Raphael David/Riotur

Prefeitura

Se o impasse permanecer até o Carnaval, com duas ligas separadas organizando desfiles da Série B, a questão pode acabar na Justiça, com final imprevisível.

A Liesb entende estar respaldada pelo regulamento da Lierj, liga da Série A.

“A Lierj aprovou em sua assembleia que a liga que irá mandar a escola campeã é a Liesb. Assim como a Liesb aprovou que a liga que receberá as que desceram do acesso é a Acas (Série E). E a Acas também decidiu que as escolas que sobem vão para a Liesb. E a campeã da Lierj sobe para a Liesa (Grupo Especial). Esse ciclo está fechado. Onde entra a Livres aí?”, questiona Ferreira.

O dirigente diz ainda já ter o aval da Riotur para as mudanças que inflaram a Série B.

Marcelo Crivella – Fernando Frazão/Agência Brasil

A Livres, por sua vez, não cogita a possibilidade das duas ligas coexistirem – pelo menos oficialmente. E deixa com a prefeitura a palavra final.

“A Riotur [empresa de turismo da prefeitura] só vai assinar contrato com uma liga. Não tem como chegar a esse nível. Quem vai resolver é a Riotur”, diz Raphaela, filha de Nesio Nascimento, fundador da Tradição, e neta de Natal da Portela.

Riotur

Procurada pelo blog, a Riotur prefere não se pronunciar. A empresa se limitou a informar que, até o momento, não houve encontro entre autoridades do órgão municipal e dirigentes das escolas.

Romulo Tesi

Romulo Tesi

Romulo Tesi Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Aluisio Machado, Beto Sem Braço e Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

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Romulo Tesi Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Aluisio Machado, Beto Sem Braço e Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

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