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“As rosas não falam, mas são de Mangueira”: há 113 anos nascia Cartola, um dos homenageados no enredo da escola para o próximo carnaval

Cartola na capa de "Verde Que Te Quero Rosa", com foto de Ivan Klingen
Capa de “Verde Que Te Quero Rosa”, com foto de Ivan Klingen

Por Bruno Filippo* – “As rosas não falam” é certamente a primeira música de que lembramos quando ouvimos o nome de Cartola. E forma, com “O mundo é um moinho”, o par de canções mais bonito de uma obra que prima pela sofisticação e pela simplicidade, pela poesia e pela riqueza melódica.

Sem essas duas obras-primas, Cartola continuaria desconhecido como um dos grandes do nosso cancioneiro, o compositor refinado que, entre outras virtudes, foi um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira. Mas estaria um degrau abaixo do que ocupa hoje, ao lado dos gigantes da música popular brasileira.

“Não me interesso em fazer uma coisa que o povo saia cantando, mas que ele sinta minha obra, isso é o que me interessa mesmo. Faço samba, música para você guardar dentro de si eternamente no seu coração, e não apenas na sua coleção de discos”, disse Cartola, com sinceridade cortante, em entrevista dois anos antes de sua morte.

“As rosas não falam” e “O mundo é um moinho” são dois sambas dolentes, sambas-canções que tocam fundo n’alma porque foram feitas para serem sentidas, para serem guardadas dentro do coração de quem as assimila. Em ambas, Cartola – nascido num 11 de outubro de 1908 – externa o que seria a principal temática de suas músicas: a visão desiludida do amor, o amor como fonte de sofrimento, tristeza, amargura, decepções.

A metáfora do moinho, que tritura e reduz a pó os sonhos tão mesquinhos da jovem que quer sair de casa para viver as coisas do amor, justamente os sonhos de felicidade, independência e realização afetivas, só não é mais aterradora do que estes versos que encerram a música: “Preste atenção querida/De cada amor tu herdarás só o cinismo/Quando notares está à beira do abismo/Abismo que cavaste com teus pés.

”Presente em parte de sua obra, a metáfora da flor é inversa à que o cinquentenário bossa-nova consagrou. A tríade amor, sorriso e flor não encontra eco em Cartola. Ao contrário dos bossa-novistas, para os quais a flor é a vida, o desabrochar, os seus encantos, a beleza de apreciá-la, Cartola via a flor pela sua própria capacidade de anular o néctar da felicidade que exala: são os espinhos, o outono, o murchar.

Parceria de Cartola com Carlos Cachaça e Zé da Zilda, “Não quero mais amar a ninguém” – composta inicialmente na década de 30 – explica o que aconteceu ao primeiro amor do “eu lírico” da canção: “Morreu como a flor/Ainda em botão/Deixando espinhos/Que dilaceram meu coração”.

No CD “Viva Cartola”, lançado pelo selo Biscoito Fino em homenagem ao centenário do mestre, há uma composição dele e de Francis Hime. A letra de “Sem saudades” diz: “Ouvindo o gorjear da passarada/Eu não senti mais nada/Que lindo dia passei/Não penso mais em amores/Ainda pouco jurei/Passo o dia entre as flores/O espinho ponteagudo (sic)/Pela rosa faz tudo/Defende-a do malfeitor/ Isto é que é ter amor/E os nossos cada vez mais diferentes/Em vez de nos defender/Sangra o coração da gente”.

Em “O inverno do meu tempo”, parceria com Roberto Nascimento, podemos ouvir: “Entre flores e espinhos demais/Já não sinto saudades/Saudades de nada que fiz/No inverno do meu tempo, da vida/Oh Deus, eu me sinto feliz”.

“Camarim”, outra parceria com Hermínio Bello de Carvalho – estão juntos em “Alvorada” -, gravada por Elizeth Cardoso e Rafael Rabello no antológico LP “Todo o sentimento”, canta em sua estrofe inicial: “No camarim as rosas vão murchando/E o contra-regra dá o último sinal/As luzes da plateia vão se amortecendo/E a orquestra ataca o acorde inicial”.

A temática, dessa vez, não é a do amor, mas a dos sentimentos do artista prestes a encarar o público; e a sequência dos versos liga a morte lenta das rosas no camarim ao acorde inicial da orquestra.

À semelhança do que fizera Chico Buarque em “Bastidores”, cuja interpretação de Cauby Peixoto dificilmente será igualada, o artista, ao travestir-se como tal, tem de se deixar morrer um pouco com pressa.

A principal canção que abarca essa temática da dor e da flor é, sem dúvida, “As rosas não falam”. De início, dá a falsa impressão de transmitir esperança, devido aos primeiros versos; mas os que se seguem revelam sua verdadeira intenção: “Volto ao jardim/Com a certeza que devo chorar/Pois bem sei que não queres voltar/Para mim.”

Mas atenção: as rosas de “As rosas não falam” não estão mortas, murchas ou furadas pelos espinhos. “Queixo-me às rosas/ Mais que bobagem/As rosas não falam/Simplesmente as rosas exalam/O perfume que roubam de ti”. As rosas estão vivas, exalando o perfume de quem se ama, mas é um perfume que não espalha a fragrância do amor, e sim a da tristeza.

A metáfora é ainda mais pessimista: a rosa é bela; no entanto, sua beleza é inalcançável porque o amor, que ele tanto perseguiu, ao qual ele tanto se entregou, por quem ele tanto sofreu, também o é.

Ouça o samba da Mangueira para o Carnaval 2022:

O leitor mais atento, antes de chegar até aqui, lembrou-se de outros dois geniais compositores ligados à Mangueira. Nélson Cavaquinho e Guilherme de Brito, poetas da tristeza, da solidão e dos fracassos, compuseram “A flor e o espinho” e “Quando eu me chamar saudade”, duas obras-primas que, assim como as letras que ilustram este texto, levam ao paroxismo a metáfora da flor para expressar seus sentimentos de mundo.

Cartola conseguiu tornar-se maior do que a Mangueira, a escola e o morro, sendo ao mesmo tempo seu representante direto. Conseguiu libertar-se do estigma que reduz grandes artistas a representantes de grupos sociais específicos. Numa época que prenuncia a morte da canção, de brutalidade musical e artística, e em que, no amor e em outras esferas da vida, tudo que não seja hedonista, de gozo espontâneo e descartável perde valor, ouvi-lo é um bálsamo. Por ele – e pelos sentimentos que expressa – as rosas, mortas e vivas, falam.

*Bruno Filippo é jornalista e sociólogo.

Este texto não reflete necessariamente a opinião do Setor 1.

Romulo Tesi

Romulo Tesi Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Aluisio Machado, Beto Sem Braço e Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

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