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Bateria da Mangueira prepara ‘marcha’ para trecho do samba sobre ditadura militar

Mestre Wesley em ação no comando da bateria da Mangueira – Reprodução/Instagram

No desfile engajado da Estação Primeira de Mangueira em 2019, a mensagem que a escola pretende passar na avenida virá não só da letra do samba e das fantasias e alegorias, mas também da bateria. Isso porque os ritmistas da Verde e Rosa incluíram uma batida de marcha no trecho da obra que cita a ditadura militar: “quem foi de aço nos anos de chumbo”.

A “bossa” – se é que pode ser chamada assim – tem sido executada nos ensaios e vazou em vídeos publicados nas redes sociais.

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Pai da ideia, mestre Wesley diz ao Setor 1 que não liga para o spoiler. “Acho até que foi melhor assim”, diz ele, que estreia no posto principal da bateria Tem Que Respeitar Meu Tamborim após fazer carreira desde os tempos em que comandava os pequenos ritmistas da Mangueira do Amanhã, a escola mirim da Verde e Rosa.

Veja abaixo como ficou a “marcha”:

“É como um manifesto da bateria”, afirma Wesley, orgulhoso por contribuir para a apresentação do enredo sobre os heróis esquecidos pela história oficial brasileira, concebido pelo carnavalesco Leandro Vieira.

A iniciativa não chega a ser tão nova. Originalmente, conta o mestre, a marcha já fazia parte dos planos para a obra da parceria de Lequinho, preferida da bateria, mas derrotado pela turma de Deivid Domênico. Com a vitória do “samba da Marielle” – como ficou conhecido, por citar a vereadora assassinada –, Wesley viu que tinha onde encaixar a batida.

“Tem tudo a ver com o momento do país, para mostrar que não estamos satisfeitos”, explica o mestre, referindo-se à fase política brasileira, com o avanço da extrema-direita e crescente militarização do governo.

Além da marcha, a bateria promete fazer uma “paradona” no trecho seguinte, que cita Marielle Franco: “Brasil, chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês”. Uma coreografia para o momento ainda está sendo estudada. Mas aí será sem spoilers.

Crise e prisão

Wesley admite que teme um julgamento contaminado por conta da postura da Mangueira, mas mantém a postura firme. “A escola abraçou”, garante o mestre.

Para ele, o momento da Verde e Rosa, com pouco dinheiro e sofrendo as consequências da prisão do presidente Francisco de Carvalho, o Chiquinho da Mangueira, acabou aumentando a garra dos mangueirenses.

“A bateria está batendo mais forte, a comunidade está cantando ainda mais alto. Isso tudo é uma provação de Deus para mim”, conclui.

Romulo Tesi

Romulo Tesi Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Aluisio Machado, Beto Sem Braço e Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

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