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‘Nós nascemos para combater um ditador’, diz fundador da Gaviões da Fiel

Banda de fanfarras dos Gaviões da Fiel, década de 1970 – Acervo Gaviões – Preservando a História

No último dia 31 de maio, o paulistano despertou com a cena de membros da Gaviões da Fiel e de outras torcidas avançando na Avenida Paulista com faixas e gritos pró-democracia, antifascistas e antirracistas. Dias depois daquele domingo, a escola de samba da organizada anunciou para o Carnaval de 2021 o enredo “Basta!”, que ergue as mesmas bandeiras vistas nas ruas.

Quem está na torcida desde a fundação garante que a Gaviões tem o chamado “lugar de fala” para enfrentar o avanço do fascismo no país: na rua, no estádio e no Sambódromo.

“Nós nascemos para combater um ditador”, diz Chico Malfitani, um dos fundadores da Gaviões, ao Setor 1.

“Quando falamos ‘basta’, é basta de descriminação econômica, social… É a coisa mais natural do mundo, nesse momento, que saia de uma torcida que é povão um enredo como esse. Defendemos essas bandeiras na rua, no estádio e no Carnaval”, afirma.

Gaviões na década de 1970 – Acervo Gaviões – Preservando a História

Fora Wadih Helu

Nas palavras de Malfitani, a Gaviões, fundada em julho de 1969, em plena ditadura militar, foi gerada na “luta política, para fiscalizar o clube e lutar por democracia no Brasil”. O ditador em questão era Wadih Helu, então presidente do Corinthians desde 1961 e deputado estadual da Arena, partido do regime militar, do qual era defensor.

“Objetivo da Gaviões era derrubar o Wadih Helu, o ditador que estava dentro do Corinthians. Já que dentro do clube não conseguíamos organizar a torcida, passamos a fazer manifestações públicas nos jogos”, lembra Malfitani.

A reação veio em forma de repressão policial, apreensão de faixas e prisão. “Nós percebemos que o ditador de plantão no Brasil [era amigo do ditador de plantão no Corinthians”, conta.

Riscaram o fósforo

Quarenta anos depois, Malfitani junta as duas pontas da história para defender que o próximo desfile da escola seja, de alguma forma, uma continuação da atuação da torcida.

“Como um dos fundadores, vejo isso com muito orgulho, porque honra as raízes da Gaviões”, comemora o torcedor, que estava no protesto do dia 31.

Segundo ele, a manifestação não partiu de uma posição oficial da torcida e nasceu espontaneamente, fruto da insatisfação nas regiões mais pobres de São Paulo.

“Surgiu nas quebradas, pelo descontentamento do povão. A gente via os caras [bolsonaristas] na Avenida Paulista pedindo ditadura e pensamos: ‘opa, vamos fazer alguma cosa’. Alguém riscou o fósforo, acendeu o fogo. Aí entraram mais pessoas e outras bandeiras depois que demos um grito de alerta”, declarou.

Revolta na periferia

Malfitani afirma também que a bronca não é genérica, e mira também o presidente Jair Bolsonaro, sobretudo pela atuação no combate à pandemia de coronavírus.

“Morreram 15 gaviões [membros da torcida] de Covid-19, e o presidente falando que é uma gripezinha. Isso gera revolta. Muita gente não consegue receber o auxílio. E o governo central não fala nada”, discursa o torcedor.

“O garoto da periferia não quer só ser entregador do Ifood. Ele quer ter uma carreira, progresso, saúde. Ele é um ser humano igual ao que mora nos Jardins. Ele quer ser tratado pela polícia do mesmo jeito que tratam o rico”, completa Malfitani.

Ele rebate as críticas pela aglomeração dos protestos: “a realidade do povão é essa: 90% do pessoal da Gaviões está saindo na rua para ir trabalhar, para sobreviver. Se não sair para trabalhar hoje, não tem o que comer amanhã. O governo não dá alternativa, ele te empurra para a rua. Durante a semana ele sai para trabalhar seis dias. Um dia na Paulista não vai mudar nada na vida dele”, desabafa.

Pé-frio

Malfitani vê o Carnaval como a chance da torcida combater o estigma de violência, além de fazer a festa que está cada vez mais restrita nos estádios. “A escola de samba mostra o lado da alegria, o que está faltando hoje na arquibancada. Autoridades proibiram quase tudo”, declara.

Apesar de ter acompanhado a fundação do bloco, que mais tarde se tornaria a escola de samba, Malfitani afirma que não é muito de Carnaval, universo onde tem inclusive fama de “pé frio”.

Chico Malfitani – Acervo pessoal

“Só desfilei uma vez, e a escola foi rebaixada”, lembra, sobre 2004, quando o carro alegórico em que estava quebrou, fazendo a Gaviões estourar o tempo e perder oito pontos. “Era justamente o carro que fazia homenagem aos fundadores. Eu estava tão empolgado e custei a perceber o problema. O braço [da escultura] do Joca [um dos fundadores] bateu no relógio, e foi bem do meu lado”, narra Malfitani, que pretende voltar à pista do Anhembi em 2021.

“Só que dessa vez eu vou no chão”, promete.

Romulo Tesi

Romulo Tesi Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Aluisio Machado, Beto Sem Braço e Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

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