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Professores levam samba da Mangueira para sala de aula e relatam experiência

Comissão de frente da Mangueira – Gabriel Nascimento/Riotur

O samba da Mangueira de 2019 passou pela dispersão e superou as fronteiras do país, ganhando até uma versão em francês. No caminho, passou pelas salas de aula brasileiras e ajudou professores a contarem a história que a História não conta.

O Setor 1 pediu a cinco mestres que usaram o samba que relatassem a experiência. Teve aluno descobrindo seus ancestrais, e até professor soltando a voz, mesmo embargada.

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Leia abaixo os relatos:

Danielle Jardim
Professora de História
Escolas Municipais Maria Clara Machado (Magé) e Simão da Motta (Guapimirim)
9º ano do Ensino Fundamental
Autora do texto sobre Padre Anchieta usado no último carro da Mangueira

Utilizei o samba buscando retomar o que é a História, para que ela serve e suas versões. A Ideia era perceber que existe uma seleção de acordo com quem conta a história e de quem se fala. Coloquei o samba da Mangueira e pedi que os alunos acompanhassem a letra, voltando às palavras que remetiam a personagens e povos que na maioria das vezes os alunos não sabem quem são – Dandara, cariris, tamoios, Dragão do Mar – e fomos desvendando. No debate, alguns deles ficaram surpresos por nunca terem ouvido falar de determinados nomes; depois, mais legal ainda, foi a percepção afiada deles que a música queria falar de pessoas e acontecimentos que geralmente não são estudados.

Fomos então para uma segunda música, “Não foi Cabral”, da Mc Carol, que foi posta em diálogo com “História para Ninar Gente Grande”. Como a letra do funk é mais direta, e como alguns já tinham tido contato com essa discussão sobre descobrimento ou invasão do Brasil, logo no fim da música quando eu perguntei sobre o que a música dizia, eles logo falaram que tinha um monte de índio aqui quando os portugueses chegaram e, portanto, eles não estavam descobrindo um lugar não habitado. Quando falávamos sobre Dandara, um grupo de meninas negras de black-power que sentam juntas super-acompanharam o debate.

Dou aula em um município pobre, de maioria negra e com a maioria das famílias chefiadas por mulheres. Falar sobre Dandara, sobre Zumbi, sobre os tupinambás que habitavam a região onde eles moram hoje, é falar dos antepassados deles. Quando ouvi o samba pela primeira vez, pensei na sala de aula imediatamente, e foi muito emocionante poder levá-lo para os alunos, e para uma turma composta em sua imensa maioria por mulheres, negros e pobres, quase como coloca a bandeira reconfigurada do Brasil apresentada pela Mangueira no desfile.

Bia Maia
Professora de Sociologia
Mestranda em Sociologia – Unesp
Colégio Estadual Antônio Prado Junior (Rio de Janeiro)

O sociólogo Florestan Fernandes afirmou em 1954 que o objeto do ensino da sociologia no que hoje chamamos Ensino Médio deve ser, “munir o estudante de instrumentos de análise objetiva da realidade social; mas também, complementarmente, o de sugerir-lhes ponto de vista mediante os quais possa compreender o seu tempo e normas para construir a sua atividade na vida social”. Partindo daí, e inspirada no trabalho de um colega, resolvi iniciar o ano letivo de 2019 apresentando a disciplina aos estudantes, usando os sambas-enredo “História para Ninar Gente Grande”, da Mangueira, e “Em Nome do Pai, do Filho e dos Santos, a Vila Canta a Cidade de Pedro”, da Vila Isabel.

A ideia era levar os estudantes ao entendimento de que há diferentes discursos e perspectivas sobre uma mesma realidade social, mostrando que nenhuma dessas abordagens é isenta de valor. Ouvimos os sambas e dividimos a turma em dois grandes grupos, para cada um analisar um samba. Debatemos e concluímos que mesmo tão próximas e no mesmo ano, a História do Brasil foi contada sob dois pontos de vista bastante diferentes na Av. Marquês de Sapucaí: a Mangueira contava história do ponto de vista dos dominados e a Vila, pelos dominadores.

Uma das questões exigia o uso da internet mobile para pesquisar sobre as personalidades e grupos mencionados em ambos os sambas, contudo, a despeito da ideia disseminada de que estudantes, de maneira geral, não prestam atenção nas aulas devido ao uso excessivo das redes sociais, poucos tinham acesso à internet pelos celulares. Superei essa dificuldade roteando a internet do meu celular para alguns estudantes. Foi uma manhã memorável, daquelas que dá vontade de continuar sendo professora até me aposentar que, espero, seja antes dos 60 anos.

Lívia Vargas
Professora de Geografia
Mestranda PPGEO-UFF
CIEP 513 – George Savalla Gomes “Palhaço Carequinha” Rede Estadual do Estado do Rio de Janeiro. São Gonçalo (RJ)
7° ano

Utilizei o samba enredo da Mangueira como recurso didático para abordar o conteúdo sobre população brasileira dialogando com a vivência dos estudantes. Já há uma prática dos professores em realizar uma abordagem que aborda as questões conforme a lei n° 10.639/2003, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira, resultado das lutas dos movimentos sociais.

As atividades propostas foram acolhidas pelas turmas, que fizeram com entusiasmo cada etapa e os olhinhos brilhavam a cada descoberta – alguns até arriscaram a cantar o samba! Pedi para que selecionassem partes que achavam interessantes, a mais escolhida foi “Na luta é que a gente se encontra”. Mangueira deixou o seu recado.

Ygor Lioi
Professor de História
Escola Municipal Adalgisa Nerym (Rio de Janeiro)
Integrante do Departamento Cultural da Portela

Os alunos ficaram surpresos pelo processo de desconstrução de algo que já está cristalizado e solidificado no imaginário coletivo. Falar que existe uma multiplicidade de versões para um fato histórico às vezes pode parecer complicado, mas não é. Mostrar os verdadeiros heróis nacionais, heróis de barracões, aqueles que ajudaram a construir a nação em meio a inúmeras adversidades, é prazeroso e necessário. Eles passam a questionar aquilo que está posto.

O que há de maior nesse processo é isso: levar à reflexão e que eles possam fazer as conexões necessárias para desconstruir o modelo vigente de ensino. São nesses processos educacionais diferenciados que há de fato a desconstrução da memória oficial. Nessa luta que mudamos a vida da molecada das periferias.

Fernando Lopes
Professor de História
Escola Municipal Bahia (Rio de Janeiro)
Projeto de Correção de Defasagem (8º e 9º do Ensino Fundamental)

A ideia de usar o samba-enredo da Mangueira de 2019 foi facilitada pela própria abordagem do carnavalesco Leandro Vieira: ler a história a contrapêlo, como anunciava Walter Benjamin. A pegada de contar a História pela visão e atuação dos protagonistas subalternos, esquecidos e esquecidas, se reforçou pelo contexto da escola onde dou aula, no Complexo da Maré de Marielle e de várias Marias, muitas dessas mães solitárias de uma turma composta por 90% de negros, nordestinos e imigrantes (tem até um filho de angolano na turma).

Botei a letra no quadro, baixei a música e, no dia da atividade, para minha surpresa, a caixa de som da escola estava quebrada. Com um canal apenas funcionando, só reverberava o instrumental. Acabei eu mesmo interpretando o samba, cantando para os alunos e com ajuda de alguns mangueirenses adolescentes. Em seguida, trabalhamos as nuances da letra, os episódios históricos que o samba remontava e principalmente a questão do protagonismo na história. Se a história é feita pelos homens e mulheres, como foi dito por um grande autor do passado, achei importante salientar que Marias, Mahins, Marielles e Malês poderiam ser elas e eles também.

A turma, habituada a uma abordagem da disciplina de forma mais tradicional, se espantava/encantava com figuras históricas como Dandara, os africanos escravizados que não aceitavam passivamente o cativeiro, os resistentes da ditadura e o exemplo mais recente e mais próximo a eles, a resistência de Marielle, ceifada de forma brutal ano passado. Além disso, os alunos ficaram muito indignados/interessados com a questão da colonização travestida de “descobrimento”.

Se já não constam nos livros didáticos mais sofisticados, no senso comum essa visão ainda é hegemônica. Aproximar a turma dos seus antepassados, mostrar que mulheres, negras, negros, pobres, etc. fazem história me emocionou muito. Ainda mais percebendo que boa parte da turma se viu com potencial de fazer e atuar na vida, fazendo também sua história e a do mundo que os cerca. E que ela pode mudar, na luta. A emoção da atividade, para mim, foi potencializada por recordar do dia da morte de Marielle e relembrar a reação dos alunos à época e sentir que a turma – a desse ano – começava a compreender uma disciplina que por vezes tem um verniz tão estático se tornando viva, pulsante, próxima, como a bateria a marcar esse samba-enredo tão fundamental para os dias de hoje.

Romulo Tesi

Romulo Tesi Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Aluisio Machado, Beto Sem Braço e Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

12 comentários

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  • Eu, como boa niteroiense, sou torcedora da Viradouro, mas esse ano a Mangueira roubou meu coração. Não só fui a quadra, como o samba entrou na minha sala de aula. Agradeço ao Romulo Tesi pela oportunidade de compartilhar minha experiência e ao camarada Luiz Guilherme Santos por ter sido o primeiro a me apresentar a letra. “Na luta é que a gente se encontra”.

  • Bom dia, li os relatos das atividades e quero parabenizar aos professores pelo comprometimento com a história narrada no enredo. Sou professora da comunidade da Mangueira, há dois anos, e percebo o quanto essa discussão necessita aprofundar. Os alunos desconhecem quem foram seus antepassados e sem este conhecimento não valorizam a história de resistência de homens e mulheres negros apagados da história. Esse ano a escola está com o projeto voltado para problematizar este tema.