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‘Carta’ da Viradouro encara jurados na Sapucaí após temporada de treta nas redes sociais entre fãs e haters

Felipe Filósofo na concentração da Viradouro – Romulo Tesi

Um dos mais requisitados para selfies – com a mão no queixo, uma marca dele – na concentração da Viradouro nesta sexta-feira (22), o compositor Felipe Filósofo bebericava um chá de erva cidreira para aliviar a tensão.

“Eu fico nervoso, e o chá me relaxa”, disse o sambista.

O nervosismo é justificável, já que dali a alguns minutos, o samba de sua autoria seria executado no desfile oficial da atual campeã. “A Carta”, como foi rebatizada pela chamada “bolha do Carnaval”, enfrentaria, enfim, o teste da apresentação valendo nota, após protagonizar os mais acalorados debates nas redes sociais – com direito a intensas trocas de indiretas.

Na mesma época, Filósofo peregrinava em lives comentando e defendendo a obra, explicando verso por verso.

“Não é ansiedade, minha pressão [arterial] deve estar normal, não é medo. É estado de êxtase, no sentido de ficar perplexo. Aliás, um dos caminhos da origem da filosofia é o momento em que você experimenta a perplexidade em relação à existência. Os gregos antigos chamavam de thaumazein“, explicou o professor de Filosofia, como o nome artístico entrega.

https://www.youtube.com/watch?v=dr4KcJl0D7Y

Andamento acelerado

No ensaio técnico, o samba recebeu críticas pela execução acelerada – o que engrossou o caldo dos debates sobre a trilha sonora do desfile sobre o Carnaval de 1919, o primeiro pós-pandemia de gripe espanhola.

O próprio mestre de bateria da escola, Ciça, admitiu que o andamento estava acelerado no teste do último dia 10 na Sapucaí. Ele inclusive sublinha: foi só um teste. “Ensaio é para essas coisas”. Para o desfile, o músico prometeu um andamento não tão rápido, mas sem exagero.

Mestre Ciça e os ritmistas da Viradouro – Romulo Tesi

“A bateria da Viradouro não toca pagode. Ela pulsa”, afirmou Ciça, enquanto aguardava seus comandados se prepararem para o desfile.

“O samba é maravilhoso, eu me apaixonei na primeira vez que ouvi”, declarou-se, mesmo admitindo: “ele é um desafio pra escola”.

“A Carta” nunca foi uma unanimidade, mas, pelo fervor de defensores e detratores, ela dominou a pauta na internet – principalmente no Twitter. E os haters eram tão ruidosos quanto os fãs, inclusive até a última passada no desfile.

Flagra em haters

Inabalável, com uma calma cultivada à base de ervas colhidas no quintal de sua casa no bucólico bairro Rio do Ouro, em Niterói, Filósofo afirma que já flagrou convertidos a ‘carters’.

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“Eu frequento rodas de samba. E eu já vi [diz, alongando o “i”] uns 90% [dos haters] cantando escondidinho. As pessoas me chamam no privado no Instagram e dizem que não gostavam do samba, mas passaram a gostar depois de ouvir uma segunda vez”, conta Filósofo, aproveitando para citar o poeta Mário Quintana.

“Quintana dizia: ‘é preciso um segundo olhar’. É claro, evidente que tudo que é revolucionário na estética, vai causar um impacto. Mas o termômetro é o povo”, completou, citando o ineditismo de um samba-enredo em formato de carta, sacada que foi buscar inspiração na Commedia dell’Arte após “intuições espirituais”.

“Veio aquele insight: ‘procura lá como era a história original do Pierrot’. E o Pierrot realmente escrevia cartas para a Colombina. Ele guardava e depois passa a declarar as cartas. Era só uma pesquisa que todo mundo poderia ter feito”, diz.

Desfile da Viradouro de 2022 – Rodrigo Gorosito/Riotur

No samba, o Pierrot se declara ao Carnaval, que volta após a pandemia. E segundo Filósofo, o Carnaval já respondeu.

“O amor foi correspondido. E o final, nós sabemos o que será, que é a consagração do amor”, encerrou, seguido de uma gargalhada.

Ainda não se sabe, porém, se os jurados de samba-enredo foram conquistados após o desfile. O resultado, como as cartas, também está guardado em um envelope, que será aberto na próxima terça-feira (26), na apuração.

Romulo Tesi

Romulo Tesi Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Aluisio Machado, Beto Sem Braço e Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

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