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Sublime estação, por Bruno Filippo

Nelson Sargento no desfile da Mangueira de 2019 – Gabriel Nascimento/Riotur

Bruno Filippo*

Nelson Sargento, que morreu nesta quinta-feira, vítima da Covid-19, aos 96 anos, foi um artista múltiplo. A maioria, pelo foco midiático que lhe era conferido, só o tinha como sambista da Mangueira, escola da qual era presidente de honra. Em alguns obituários que reivindicam seu corpo, ele é descrito por inteiro: para além de cantor e compositor, Nelson foi pintor – de parede e de quadros -, artista plástico, escritor e ator.

Seu samba mais conhecido, “Agoniza mas não morre”, já lembrado a exaustão, esconde outras obras-primas compostas ao longo de uma carreira que remonta ao fim dos anos 1940, influenciado pelo seu padrasto, o compositor – e também pintor de paredes – Alfredo Português.

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“Agoniza mas não morre” foi gravada por ele em 1979; e dela pode-se inferir uma leitura mais afeita à década de 1970: Nelson cantava, por meio de um samba triste, a alegria pelo sucesso do gênero musical, que estava em evidencia devido a nomes como Clara Nunes, Beth Carvalho, Alcione, Joao Nogueira, Roberto Ribeiro, Paulinho da Viola.

É curioso que exatamente nesta época – em 1975 – Alcione tenha estourado com outro clássico do samba, “Não deixe o samba morrer”, de Edson Conceição e Aluísio Silva. Nas duas obras predomina a ideia de extinção, de finitude do gênero, ainda que para Nelson Sargento isso jamais acontecerá, ao passo que, para a dupla gravada por Alcione, a ameaça seja real – daí o imperativo do título, contido no verso principal.

Quando o samba esteve realmente agonizando, Nelson batalhou para que ele não morresse. Na história da música popular brasileira, a década de 1960 foi marcada por pela ascensão de novos gêneros que tiraram o espaço do samba tradicional: bossa nova, Jovem Guarda, MPB oriunda dos festivais de música, Tropicalismo.

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Por essa época adversa, Nelson integrou dois conjuntos de samba junto com nomes que se consagrariam – “A Voz do Morro”, com Zé Kéti, José da Cruz, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho e Anescarzinho do Salgueiro; e “Os Cinco Crioulos”, com Mauro Duarte, Elton, Jair, Paulinho e Anescarzinho. E participou do histórico show “Rosa de Ouro”, em 1965, no Teatro Jovem, dirigido por Hermínio Bello de Carvalho.

Hoje que o samba está novamente em baixa, sem conquistar de maneira maciça corações e mentes de jovens, que curtem mais funk e sertanejo, e com tendência a tornar-se um nicho de rodas de samba, a imensa repercussão de sua morte torna mais concreta a letra de sua magna obra.

*Bruno Filippo é jornalista e sociólogo

Romulo Tesi

Romulo Tesi Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Aluisio Machado, Beto Sem Braço e Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

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