Presidente da Ilha critica Eduardo Paes por falta de patrocínio em 2016: ‘não honrou a promessa’

Grupo Especial - Rio União da Ilha
Romulo Tesi
Escrito por Romulo Tesi

A União da Ilha foi uma das primeiras escolas a definir o enredo para o Carnaval 2016, sobre os Jogos Olímpicos do Rio. O anúncio foi feito inclusive antes do desfile daquele ano. Com o dinheiro jorrando para a organização da Olimpíada, o cenário parecia perfeito: não faltariam recursos para a escola fazer uma grande apresentação. Mas o sonho olímpico insulano virou pesadelo.

Em entrevista ao Setor 1, o presidente da escola, Ney Filardi, conta que não caiu um centavo dos patrocinadores dos Jogos na União da Ilha. “Ele (prefeito Eduardo Paes) disse para mim: ‘Ney, a União da Ilha quer fazer (o enredo das) Olimpíadas? Se você quiser, eu te consigo um belo de um patrocínio’”, conta o dirigente. Mas segundo Filardi, a União não viu a cor do dinheiro prometido.

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Filardi narra como se deu a aproximação com de Paes com a escola e revela uma dívida milionária daquele desfile, ainda sendo paga. “Agradeço aos fornecedores pela paciência”, diz.

O presidente fala ainda dos planos para 2018, programa de sócio-torcedor, mudanças nos ensaios, Gracyanne Barbosa e fama de escola simpática. “Acho que a Ilha já merecia um título”, diz.

Ney Filardi, presidente da União da Ilha – Foto: Divulgação

Leia a entrevista na íntegra:

A escola já tem enredo para 2018?
Estamos estudando algumas propostas, mas ainda não definimos.

Mas já sabe se será autoral ou patrocinado?
A escola vai esperar até o último momento por um enredo patrocinado, que ajuda muito. O enredo patrocinado permite fazer um belo desfile, competitivo. Diferente daquele feito com o dinheiro contadinho. E o Carnaval está ficando cada vez mais gigante.

Para o Carnaval de 2016, você disse que pensou em fazer um enredo sobre o Tim Maia. Isso está descartado?
Está descartado. Não que o Tim Maia não mereça, mas me parece que a família não concorda. Foi o que chegou para mim, que a família não concordava com esse tipo de homenagem. Nem fizemos o convite.

Depois do Carnaval de 2016, a escola ainda aguardava recursos que haviam sido prometidos pela Prefeitura do Rio, por ocasião do enredo dos Jogos Olímpicos. Um ano depois, a União da Ilha recebeu alguma coisa?
Infelizmente, nenhum centavo.

O portelense Eduardo Paes na Sapucaí em 2012 – Nelson Perez/Riotur

E foi uma promessa do prefeito?
Isso, do prefeito Eduardo Paes.

E qual era o valor?
De R$ 4 milhões a R$ 5 milhões.

E de onde viria esse aporte?
Não viria de órgãos públicos. Mas a prefeitura, por meio de uma equipe montada pela Secretaria de Casa Civil, ajudaria a captar os recursos com os patrocinadores das Olimpíadas. Mas infelizmente não entrou um centavo, o que atrapalhou muito o desfile. (A escola terminou em 11º lugar, a uma posição do rebaixamento)

Ainda há dívidas daquele desfile?
Ainda estamos pagando. Agradeço aos fornecedores pela paciência. Alguns não receberam até hoje. A dívida já foi maior, mas estamos amortizando e hoje está em R$ 2,5 milhões.

E como foi a aproximação da Prefeitura com a União da Ilha?
Essa promessa se deu no ano anterior ao das Olimpíadas. A equipe deles (da Prefeitura) começou a trabalhar já no início do ano (2015). Tudo que planejamos fazer foi analisado por essa equipe. E o dinheiro começaria a entrar na escola em setembro ou outubro. O que nós fizemos? Nós dizíamos (aos fornecedores): “olha, isso aqui eu posso pagar em outubro”. Chegou setembro, outubro, novembro e o dinheiro não veio, e eu fiquei endividado. Ele disse para mim: “Ney, a União da Ilha quer fazer (o enredo das) Olimpíadas? Se você quiser, eu te consigo um belo de um patrocínio”. Palavras dele. Uma equipe deles, de uma agência de propaganda, se instalou no barracão. Como eu ia duvidar? Nós perguntávamos e eles diziam: “isso aqui pode fazer que a gente paga”. Fui fazendo e me ferrei.

A escola contava com o dinheiro prometido pela Prefeitura.
Sim. Vou te dar um exemplo. Fizemos um carro que representava o pôr do sol no Arpoador que só de led custou R$ 280 mil. Se não tivesse essa promessa, nunca faríamos um carro com esse absurdo de dinheiro. A escola não tem patrono, não tinha patrocinadores. Em circunstâncias normais, eu não faria. Mas diante da promessa do prefeito… Contratei o serviço da pessoa e ainda devo. Hoje eu não tenho dinheiro para colocar um led. É uma lampadazinha e olhe lá, ou uma vela de preferência, mas a Liesa não permite (risos).

União da Ilha em 2016: escola gastou R$ 280 mil em led no carro sobre o pôr do sol do Arpoador – Foto: Facebook da União da Ilha

Ficou uma lição disso? Se aparecer uma promessa desse tipo agora, de alguma prefeitura, você confiaria?
Por que eu confiei na palavra do Eduardo Paes? Porque tudo que ele me prometeu anteriormente, ele cumpriu. Eu não tinha motivo para duvidar dele. Mas infelizmente ele não honrou a promessa. Hoje eu sequer estudaria a possibilidade.

Sem patrocínio, como a escola faria para conseguir recursos? Encher a quadra…
Mas está muito difícil (de encher a quadra). Primeiro por causa da crise que o país atravessa. Segundo pela violência galopante. Fazer os ensaios aos domingos não deu certo. Mas pretendo ainda este ano pensar numa alternativa. Talvez fazer os ensaios às sextas, começando mais cedo. Temos que driblar a crise.

A União da Ilha é conhecida como uma escola simpática, querida por todos. Quando a escola ganhar um Carnaval, esse rótulo ficaria ameaçado?
Não. Deixaria o mundo do samba muito feliz. É a segunda escola de todo mundo. Acho que a Ilha já merecia um título.

União da Ilha 2017 – Fernando Grilli/Riotur

A União da Ilha pretende lançar programa de sócio-torcedor?
Estamos implementando. Provavelmente vamos anunciar no mês que vem. Será nos moldes dos programas de clubes de futebol. O associado pagaria metade do ingresso nos ensaios, teria um dia para tocar instrumento na bateria, tirar foto com o mestre de bateria, com (o intérprete) Ito Melodia, com a rainha de bateria, visitar o barracão, concorrer a fantasias, camarotes e outros benefícios.

Já que a União da Ilha é a segunda escola de todo mundo, vocês esperam atrair a pessoa que mora na Ilha do Governador, mas torce por outra agremiação?
Sim. Essa é uma ideia.

O carnavalesco Severo Luzardo está acostumado a trabalhar com poucos recursos, imagino.
Ele faz o feio virar lindo. É um mágico, um grande artista. Não posso prometer que ele vai ficar muitos anos porque meu mandato está perto de acabar. Mas se eu pudesse fazer um pedido ao próximo presidente, seria para manter o Severo e toda a equipe. Ele é um gênio, um artista, excelente ser humano e parceiro da escola.

E a Gracyanne Barbosa, vai ser mesmo a rainha de bateria?
Só depende de casar o calendário dela com o da escola.

Gracyanne Barbosa na quadra da Portela – AgNews

Sobre o autor

Romulo Tesi

Romulo Tesi

Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Aluisio Machado, Beto Sem Braço e Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

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