Vem aí a “arena do samba”: presidente da Riotur quer Sambódromo moderno, com telões e assentos numerados

Rio de Janeiro
Romulo Tesi
Escrito por Romulo Tesi

“O Sambódromo parou no tempo”.

A frase é do presidente da Riotur, Marcelo Alves, empresário do ramo de marketing, que trabalha com a festa há mais de 15 anos e que diz conhecer o lugar como palma da própria mão. “Eu sou um apaixonado pelo Carnaval”, afirma.

Com a missão de organizar a festa, Alves quer fazer uma revolução no espaço dos desfiles. A começar pela foma como se refere à Sapucaí. A avenida vai virar arena. E a pista será tratada como palco. “E no palco não entra ninguém além dos artistas”, ressalta.

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A Passarela do Samba vai ganhar telões, nova iluminação, novos banheiros, museu e, se obras permitirem, assentos mais confortáveis – e numerados. Tudo, pretende Alves, feito em parceria com a iniciativa privada. Parte disso já para 2018.

Nesta entrevista ao Setor 1, do Portal da Band, o presidente da Riotur conta todas as mudanças pretendidas para o Sambódromo, a disputa Portela x Mocidade pelo título, acidentes, ensaios técnicos – que terão simulações para emergências – e verbas da prefeitura para o Carnaval. Alves afirma que o prefeito Marcelo Crivella não pensa em reduzir os recursos. “O que posso garantir é que em nenhum momento ele foi contra o investimento”, diz.

Perspectiva da Praça da Apoteose de Oscar Niemeyer, de 1983

Leia a entrevista na íntegra:

Essa foi sua primeira experiência na organização do Carnaval pela Riotur (Alves assumiu o posto em janeiro). Vi que você esteve até nos desfiles da Intendente Magalhães. Pelo o que viu, o que achou?
A gente está olhando para o produto Carnaval como um todo. O que podemos buscar no mercado, de parceiros comerciais, de marcas, para investimentos em todo o projeto: no Terreirão do Samba, Intendente Magalhães, nos blocos e na Sapucaí. Sem parcerias comerciais, entendendo que esse é o principal produto turístico do Rio de Janeiro, e um produto que gera uma urgência absurda de relacionamento de marcas com o público, a gente não vai conseguir investimento para fazer grandes melhorias. Se temos esse título de “maior festa do mundo”, é claro que precisamos melhorar muito, em tudo.

Você está falando de iniciativa privada, certo? Já houve encontros com empresas e elas demonstraram interesse em participar?
Eu venho da área de comunicação e sempre trabalhei com marcas, e todas que atendi querem estar não só no Rio como nos produtos do Rio, e o Carnaval é o nosso principal produto. Já conversei com algumas. O que vi é que muitas marcas, sem autorização da prefeitura, fizeram ativações sem legalização. No ano que vem vamos acabar com isso. Vamos definir no plano comercial as propriedades para que marcas tenham exclusividade em segmentos e direito de participar. Fora isso ninguém mais participa.

Algumas mudanças no Sambódromo já foram faladas, inclusive pelo Boni, que é um dos conselheiros da Secretaria de Cultura. Ele reclamou da luz do sambódromo.
Se temos o maior espetáculo da Terra, temos que ter uma arena condizente, tecnológica, moderna para receber esse espetáculo. Hoje a Sapucaí está muito aquém do mínimo das arenas do mundo. A iluminação é analógica, não se pode tratá-la em um projeto de luz para nenhum espetáculo, porque é fixa e fria. Então tem que ser com lâmpadas de led, além da economia que vamos ter. A nossa ideia é retirar alguns refletores que hoje estão dentro do Sambódromo e reaproveitar do lado de fora, para aumentar a sensação de segurança.

Uma escola poderia programar a luz do seu desfile?
Isso é necessário. Nos grandes espetáculos do mundo, cada artista, cada show tem a sua luz, preparadas por light designers, com projetos de iluminação. E evidentemente, tudo combinado com a televisão, que tem suas questões técnicas. A luz que tem hoje é muito ruim para a transmissão.

Ala das Baianas da Mangueira em 2017 – Fat Press/Liesa

E os telões?
Eles serão ferramentas para proporcionar ao público o espetáculo em detalhe. Qualquer arena do mundo conta com telões. Só o Maracanã tem quatro. O Sambódromo não tem nenhum. O que queremos são telões em cima de cada setor. De forma que você, sentado em local, olhando para frente, veja o telão. Para passar, antes do espetáculo, o que você vai ver: o enredo, o que está sendo mostrado, como foi criado, contado pelo carnavalesco. Durante o desfile, os telões devem mostrar o detalhe: o passista e o ritmista, por exemplo. E nos intervalos, passar o Rio de Janeiro, vender a cidade para quem está ali. Temos ali 80 mil espectadores, a maioria deles turistas.

E estão previstas mudanças nas arquibancadas, como colocação de assentos?
É uma ideia antiga nossa, ainda está em estudo. Mas por questões de projeto (original), ainda não é viável instalar cadeiras. Porque o degrau é muito estreito. Então precisaria de uma reforma significativa, com um alongamento de degrau, para que a gente pudesse instalar uma cadeira e ainda sobrasse espaço para as pessoas circularem na frente. Hoje não dá. E com isso se perderiam muitos assentos (a capacidade do Sambódromo é de 80 mil lugares). Isso vai ser discutido na reunião. Mas se queremos ter uma arena com padrão mundial, não justifica não termos lugar marcado. Em qualquer lugar do mundo, quando você compra o ingresso, você sabe em que lugar vai sentar.

Essa cultura do assento numerado custa a pegar no Brasil…
Mas na Copa do Mundo todo mundo adotou, na Olimpíada todos respeitaram. Nos grandes eventos, todo mundo adota. O turista compra o assento, mas não sabe em que lugar vai sentar. Tem que chegar cedo. Se for ao banheiro, pode perder o lugar. A ideia é dar conforto para quem está nos visitando e comprando o espetáculo.

Todas essas mudanças já estão sendo discutidas?
Sim. Na próxima quinta-feira (dia 20), vamos nos reunir no Centro de Operações com todos os órgãos competentes que fazem o Carnaval, junto com a Secretaria de Obras, para ouvir e entender demandas, e finalizar esse projeto de melhorias para o Sambódromo, o que nunca foi feito. Os banheiros precisam ser refeitos, assim como toda parte elétrica, instalação de gás, esgoto… Enfim, o Sambódromo parou no tempo.

E vocês pensam em intervenções na entrada e saída das escolas do Sambódromo?
Não. Para isso a gente precisa ouvir a Liesa, que é a responsável por coordenar a parte técnica do desfile. Mas o que quero propor ao Jorge Castanheira (presidente da Liesa) é que diminuir o número de pessoas na pista. É uma missão nossa. Nós já reduzimos muito esse ano. Eu quero reduzir isso muito, porque entendo que ali não é pista, é palco. E no palco não entra ninguém além dos artistas, que são as pessoas das escolas.

É uma mudança de concepção.
Totalmente. Eu quero dividir isso com o Castanheira, para que a gente tenha ainda mais rigor na questão dos credenciamentos e permanência de pessoas no palco. E no palco não entra ninguém além de técnicos e artistas.

Você estava no Sambódromo e acompanhou o atendimento dos feridos dos acidentes com os carros alegóricos da Paraíso do Tuiuti e Unidos da Tijuca. Qual foi sua impressão sobre esses acontecimentos, sendo você alguém que não é novo no samba?
Sou um apaixonado pelo Carnaval. Estou no Sambódromo produzindo camarotes há mais de 15 anos. Conheço aquilo como a palma da minha mão. Quem é o comandante daquela operação naquele momento? Acho que faltou um comando central. Tanto que já definimos que, em qualquer eventualidade, o comando é da Defesa Civil. Estamos criando avenidas, com linhas pintadas no chão, para evacuações, exclusivas. Caso necessário, somente carros de polícia, bombeiros e ambulâncias poderão passar por essas pistas desenhadas no chão. Vamos também treinar essas operações de emergência nos ensaios técnicos. Tivemos uma atuação do Corpo de Bombeiros, da Secretaria de Saúde muito, muito eficientes, mas sentimos a falta do comandante.

AgNews

Carro da Tuiuti que atropelou atropelou pessoas na entrada do Sambódromo – AgNews

Na prática, a Defesa Civil teria o poder de interromper os desfiles da Tuiuti e da Tijuca após os acidentes?
Acho que sim, se for algo de extrema necessidade e emergência. A prioridade é a vida.

Esse treinamento para as emergências, que vão ser feitos nos ensaios técnicos, seriam como simulações de acidentes, como fazem para Copa e Olimpíadas?
Sim. Em vários pontos do Sambódromo, no início, meio e fim.

Você usa a palavra “arena” para se referir ao Sambódromo, o que é pouco usual para alguns. Isso também é uma mudança na forma de ver o espaço, como fizeram na Copa? Os estádios foram modernizados e passaram ser chamados de arenas.
É como uma arena de ópera. A gente trata assim por ser um local de espetáculo. É uma arena, sem sobra de dúvida. Como a gente quer implantar tecnologia e modernidade em tudo, tratamos como uma grande arena, até por questão de referência.

Para bancar tudo isso, seria 100% com recursos da iniciativa privada?
Sem dúvida. Queremos dar vida ao Sambódromo durante o ano inteiro. A Apoteose é um dos cinco locais mais visitados do Rio de Janeiro. Estamos trabalhando em um projeto de melhoria para atender o turista que visita o Sambódromo durante o ano, proporcionando conforto e experiências com fantasias, mostrando a história do samba. Tudo com patrocínio e divulgação de marcas.

Haveria um museu no Sambódromo?
O projeto do museu está pronto. Estamos na fase de comercialização, atraindo marcas que tenham relacionamento com o Carnaval ou com o mercado de turismo, como cartões de crédito, que tenham interesse em estar conosco nessa empreitada. Se chama Rio Carnaval Experience, uma experiência no mundo do Carnaval. Será embaixo do Setor 11.

Durante o Carnaval, o prefeito Marcelo Crivella não foi ao Sambódromo e ficou marcado como alguém que não gosta de Carnaval. Foi criticado pela ausência nos desfiles. No mundo do samba, houve quem temesse uma perda da verba da prefeitura para as escolas, até por causa da crise que a esfera pública atravessa. Hoje é possível dizer que não haverá redução desses recursos?

A gente tem que respeitar o prefeito e suas decisões. Mas o que posso garantir é que em nenhum momento ele foi contra o investimento ou apoio. Pelo contrário. Ele nos deu total apoio, nos cobrando diariamente para que a gente proporcionasse o melhor Carnaval que a cidade já teve. E foi o que aconteceu. Batemos o recorde de turistas (1,1 milhão) e de impacto econômico. O Carnaval deixou este ano R$ 3 bilhões no Rio. Entendemos que isso é um negócio para a cidade, e não tem como pensar em menos do que isso. Não é custo, é investimento. O Carnaval 2018, para nós, já começou.

Desfile da Portela em 2017 - Fernando Grilli/Riotur

Desfile da Portela em 2017 – Fernando Grilli/Riotur

Mas o anterior só acabou ontem, não é? A Portela desistiu do recurso contra a divisão do título com a Mocidade. Esse problema todo atrapalha a vender o Carnaval?
Pelo contrário. É uma questão de respeito e seriedade. Após a apuração e todos os recursos, a Liesa foi muito inteligente e humilde de rever a posição de um jurado. Tanto que a Portela acatou. Isso mostra maturidade e respeito ao espectador. Mesmo após mais de um mês, debateram e chegaram a uma conclusão justa. Isso é respeito a todos do Carnaval.

No passado, no Acesso, a Riotur já participou da escolha dos jurados. No Grupo Especial isso está a cargo da Liesa. Depois da divulgação das justificativas deste ano, esse foi um ponto muito criticado. A Riotur pensa em assumir essa atribuição?
Não, absolutamente. Não existe entidade melhor e mais competente que a Liesa para fazer o Carnaval. Fazer um espetáculo com seis atrações por dia, só a Liesa. O que temos que fazer é melhorar o entorno, dar total apoio, e fazer com que o Sambódromo se torne uma arena com padrão internacional.

Alves no dia da Apuração do Carnaval de 2017 – Alexandre Macieira/Riotur

Sobre o autor

Romulo Tesi

Romulo Tesi

Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

Comentários

  • acompanhO o Carnaval desde 1972 ao vivo.Império Campeão..Segurei o Chapeu de Leilão Diniz Pra elá ajeitar o Cabelo e sair e ser Campeã..Moro No Catumbi desde que nasci Do meu terraço vejo o Carnaval de graça desde 1978 quando o Desfile foi do Catumbi parafael a Presidente Vargas. Vi construir o Sambodromo fiquei noites e noites sem dormir com o Barulho do Bate estaca para fazer a APOTEOSE..portanto se tem alguém que conhece o Sambodromo esse alguém souber eu..QUE JÁ ASSISTI DE TODOS OS LUGAR ES . inclusive já Filmei os Desfiles. Sou Diretor de TV. Agora vamos aos delírios do presidente da Rio Tur e do Boni…NÃO TEM CONDIÇÕES DE MELHORAR A LUZ…E se colocar telão será tiro.no pé..
    Primeiro a luz seria lateral ofuscando quem está assistindo…Se colocar a luz de cima o que seria o ideal poderá causar um acidente tipo a câmera que caiu da Rede Globo…fato..
    sobre todos telão acorda alguém quer arrumar algum..O telão tiraria todo o movimento de câmera já que ele ficaria a vista dos telespectadores….O que seria o.ideal para o desfile militar das escolas de samba e fazer na apoteose.uma verdadeira apoteose..TIPO PARINTINS COMO SE FOSSE UMA ÓPERA A CÉU ABERTO VALENDO 30% DOS PONTOS…AÍ SIM FARIA UMA ILUMINAÇÃO ADEQUADA. do.mais não daria certo.MP orquestra a TV precisa de luz e a luz do Sambodromo é ótima para a transmissão..A olho nu não presta mas para a TV..funciona bem…abs..

  • Participo intensamente do Carnaval do Rio , Ilha e Santa Cruz principalmente onde desfilo, frequento ensaios , festas , eliminatórias de sambas de enredo de outras Escolas também, estando sempre entre Rio- Pindamonhangaba -São Paulo .
    PARABÉNS RIOTUR LIESA PELA ORGANIZAÇÃO, LOGUSTICA,VENDA DE INGRESSOS ETC… PECANDO APENAS NA” SUPER LOTAÇÃO DAS ARQUIBANCADAS ” A RECLAMAÇÃO É TOTAL !
    Grato

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