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Salgueiro terá enredo sobre luta dos negros no Carnaval 2021: ‘ser preto é um ato de resistência’

O Salgueiro anunciou nesta quarta-feira, 8, o enredo da escola para o Carnaval 2021, sobre a resistência negra no Brasil em vários momentos da história do país, em diversas áreas.

“Aqui, ser preto é, acima de tudo, um ato de RESISTÊNCIA”, exclama a escola na sinopse, com grifo na palavra usada como título do enredo.

O lançamento foi feito em live no canal da agremiação no YouTube, com o carnavalesco Alex de Souza e a professora e escritora Helena Theodoro, uma das autoras do enredo.

“Esse enredo me emociona muito porque em todos os setores da vida brasileira está lá a resistência do processo civilizatório negro africano, que insiste e persiste na sua existência por mais que sejam todos os fatores que queiram anulá-lo, dizer que ele é inferior aos demais. Temos um país muito rico, muito pleno, mas muito desigual. Mas a gente continua lutando, e o enredo do Salgueiro é a demonstração dessa luta”, declarou Helena.

“Toda construção das festas está ligada a um processo de resistência. Festejar é resistir. É cantar o samba num ritmo sincopado que faz com que você tenha uma interferência do contratempo, do movimento de Exu, de todas as coisas que estão relacionadas ao nosso processo civilizatório negro africano”, completou a professora, um dos nomes mais importantes nas pesquisas sobre a cultura negra.

Assista à live na íntegra:

O enredo de temática negra, que teve a concepção de Eduardo Pinto e Marcelo Pires, da Diretoria Cultural do Salgueiro, é lançado em meio às manifestações antirracistas em todo o mundo, por justiça social e igualdade.

A sinopse adianta o tom reivindicatório do enredo. Em um trecho, o texto afirma que “hoje, ser preto no Rio de Janeiro e no Brasil (país que tem a segunda maior população preta no mundo) é ter que lutar diariamente por respeito”

“Lutar para não ceder nem sucumbir à segregação promovida pela sociedade e pelo Estado. É recusar os abusos e a submissão pela ausência de políticas públicas que poderiam promover melhores condições de vida. É não se deixar enganar pela pseudo ‘democracia racial’, sempre camuflada por hipocrisia, eufemismos ou subterfúgios mal disfarçados”, afirma a escola na sinopse, marcado por uma mensagem direta.

Em sua fala na live, a professora Helena Theodoro ressaltou a importância dos saberes negros na formação cultural brasileira, defendeu o que chama de “grande família brasileira”, representada também pela cultura africana.

“A sociedade brasileira para ser uma nação, precisa se transformar numa grande família brasileira, onde todos tenham três refeições por dia, escola, atendimento de saúde e tenha representação, seja na política, na música, na economia, no teatro, no cinema, no futebol, a capoeira, a culinária…”, discursou, sem deixar de exaltar a importância fundamental e da religião.

Bateria do Salgueiro em 2019 – Richard Santos/Riotur

Em uma breve aula, Helena explicou como a organização religiosa dos negros foi decisiva no processo de resistência de sobrevivência da cultura africana no Brasil.

“Resistir é a gente conseguir, apesar dos apesar, entrar nas irmandades religiosas das igrejas, e transformar essas irmandades em luta nossa. O negro não podia ter direito à propriedade até o século 20. E as irmandades religiosas vão ter dinheiro para comprar alforrias, para comprar terreno para fazer o primeiro terreiro de Candomblé, para tomar conta das crianças negras que tiveram seus pais levados, e para fazer justiça social. E nós vamos ter o apoio dessas irmandades nas lutas contra a escravização do povo preto no nosso país. Ela vai permitir que a gente tenha contato com a arte, com a inquietação, e inclusive a ressignificando”, narrou.

Leia a sinopse do enredo do Salgueiro de 2021:

G.R.E.S. ACADÊMICOS DO SALGUEIRO
CARNAVAL 2021
RESISTÊNCIA

Maior cidade escravista das Américas, o Rio de Janeiro foi o palco da assinatura da Lei Áurea, diploma legal que extinguiu a escravidão no Brasil. Abolir o trabalho escravo, porém, não foi suficiente para promover as mudanças tão desejadas por todos nós. Abandonados pelo Império, continuamos sem condições para uma existência decente. Libertos, tornamo-nos prisioneiros da miséria nos cortiços, nas ruas, nos trabalhos precários e na ausência de direitos humanos e sociais básicos. Discriminados e marginalizados, sem cidadania, sem alternativas para uma vida digna, fomos lançados à nossa própria sorte. Excluídos – no dia seguinte, na década seguinte, no século seguinte –, vivemos, até hoje, sufocados.

Hoje, ser preto no Rio de Janeiro e no Brasil (país que tem a segunda maior população preta no mundo) é ter que lutar diariamente por respeito. Lutar para não ceder nem sucumbir à segregação promovida pela sociedade e pelo Estado. É recusar os abusos e a submissão pela ausência de políticas públicas que poderiam promover melhores condições de vida. É não se deixar enganar pela pseudo “democracia racial”, sempre camuflada por hipocrisia, eufemismos ou subterfúgios mal disfarçados.

Aqui, ser preto é, acima de tudo, um ato de RESISTÊNCIA.

E resistir é ter nossa história, antes negada e silenciada, ressignificada e recontada no carnaval, lugar de alegria, mas também de diálogo com o mundo. Ao som dos tambores ancestrais, o Salgueiro foi pioneiro na introdução da temática africana nas escolas de samba. Seguiu na contramão da narrativa “oficial” do país e deu vez e voz aos personagens, heróis e protagonistas pretos. Como um Griot, transmitiu ricas histórias por meio de enredos que revelam a participação da escola no processo de resistência cultural e de luta contra o racismo institucional.

Resistir é plantar um legado nos “chãos” do Rio de Janeiro. Criamos Quilombos, lugares de resistência e insurgência negra, com estrutura política, econômica e social africana. Revivemos a história nas marcas deixadas na Pequena África, região que se destaca como lugar de acolhimento e também por personagens como as tias baianas festeiras da Praça XI, cozinheiras e Mães de Santo celebradas até hoje pela fantasia e pelo rodopio que as nossas Alas de Baianas exibem. Foram elas que formaram o espaço sociocultural do samba, entendido como extensão dos terreiros de Candomblé.

Resistir é professar nossa fé. Por ela nos unimos nas irmandades religiosas que faziam filantropia por justiça social. Construímos os terreiros de Candomblé, templos que são uma reinvenção do macro universo cultural e religioso trazido do continente africano. Desenvolvemos o Culto Omolokô e criamos a Umbanda, religião afro-brasileira surgida no Rio de Janeiro, que sincretiza elementos do Candomblé, do Espiritismo e do Catolicismo.

Resistir é expressar nossa cultura para manter a continuidade de valores civilizatórios. Com a benção dos orixás, entramos na cozinha, espaço de saber, para alimentar o corpo e a alma. Para transformar alimentos, hábitos e a própria culinária brasileira. Ao som dos atabaques, “compramos o jogo” nas rodas de capoeira e dançamos jongo ou caxambu. Pisamos nos gramados para expulsar os cabelos esticados e o pó-de-arroz que “disfarçavam” a cor da nossa pele. Brilhamos nas passarelas e nas ruas com as formas, símbolos, cores e texturas de nossa moda.

Resistir é fazer arte. Inquietos por representatividade e pela visibilidade que insistem em nos sonegar, criamos nossas próprias narrativas e espaços nas artes cênicas, como o Teatro Experimental do Negro. Assumimos nosso protagonismo e nos fizemos enxergar também por meio da literatura, da dança, das artes plásticas. Espalhamos para o mundo a vocação artística que reside em nós.

Resistir é festejar. É revelar nossa maneira de ser por meio das festas, do modo de celebrar a vida, do entusiasmo que propicia o resgate de nossa identidade e afirmação existencial. Desde o chorinho na Festa da Penha, passando pelas escolas de samba, afoxés e blocos afro. Pelo pagode à sombra da tamarineira, pelo funk carioca e pelo charmoso baile sob o viaduto de Madureira.

Resistir é existir.
É continuar a reverberar a coragem dos nossos heróis contemporâneos de pele preta.
É saber que somos frutos de uma mesma raiz de igualdade, fé, esperança, arte e vida.
É crer que nenhuma luta foi em vão. Que nenhuma luta será em vão.
É persistir no sonho de igualdade para que ele não seja silenciado.
É entender que, juntos, em cada passo e em cada pequena mudança, seguiremos adiante.
E é ter certeza que no dia em que fizermos cair todas as máscaras da discriminação, conseguiremos, enfim, respirar.

Autoria e curadoria: Dra. Helena Theodoro
Carnavalesco: Alex de Souza
Concepção: Eduardo Pinto e Marcelo Pires (Diretoria Cultural)
Texto: Paulo Barros

Romulo Tesi

Romulo Tesi Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Aluisio Machado, Beto Sem Braço e Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

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