Mundo de Gulliver carnavalesco: conheça as escolas de samba de maquete

Fora da avenida
Romulo Tesi
Escrito por Romulo Tesi

Uma escola de samba gaúcha vence o Carnaval com o enredo sobre o Egito, após apuração emocionante e com uma virada, na última nota, sobre uma agremiação goiana. Isso em pleno abril. Tal cena, impensável no Carnaval real, é possível nos desfiles das escolas de samba de maquete.

Organizadas pela União das Escolas de Samba de Maquete (UESM), criada em 2013, os desfiles reproduzem, em menor escala, o que acontece nas apresentações dos sambódromos reais, só que com bonecos no lugar dos componentes e carros alegóricos em tamanho reduzido. Isso em uma avenida montada por cada escola, feita especialmente para a ocasião. São no mínimo dois metros de pista, embora haja algumas de sete. O samba, no entanto, é real, podendo ser inédito ou uma reedição.

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Os desfiles de 2017 aconteceram com dois grupos, Especial e acesso, nos dias 15 e 16 de abril – na verdade, essas foram as datas em que os vídeos das apresentações foram exibidos pela UESM em seu canal no You Tube. No total são 32 agremiações, contando com o grupo B, de avaliação, de todas as regiões do Brasil.

A Império de Ouro Branco, de Novo Hamburgo (RS), venceu o Especial, seguida pela Unidos de São Vicente, da Cidade de Goiás (GO). No Acesso, deu Unidos do Tijucano, com o vice-campeonato indo para a Coxa Bamba da Rainha. (Veja todos os resultados na página da UESM)

Veja abaixo o desfile da Ouro Branco:

Funciona assim: uma escola monta sua avenida e seu desfile, coloca carros, tripés e componentes (incluindo os da comissão de frente e de casal de mestre-sala e porta-bandeira) na pista, prepara luzes especiais e filma tudo, inserindo o samba na edição. O vídeo é enviado para a UESM, que grava comentários em cima e publica. Os jurados de cada quesito (são sete) assistem e dão as notas, que são lidas em apurações com dinâmica semelhante ao do Carnaval real.

Até R$ 1.000, sem patrocínio

As escolas são montadas em trabalhos solitários ou com poucas pessoas envolvidas, de uma mesma família e círculo de amigos, em quase um ano de preparação. Algumas realizam até ensaios técnicos. Os vídeos são feitos em três dias.

Veja abaixo o desfile da Unidos do Tijucano, campeã do acesso:

“O tempo longo é porque, assim como no carnaval real, tem a definição do tema, do samba, divulgação de logo de enredo. Tem gente que faz festa ou vende rifa e camiseta para arrecadar dinheiro. Ainda tem os testes de material, de luz e de movimento. E a maioria faz tudo sozinho. A gente vai para a internet aprender a usar motor de brinquedo para dar movimento, engenhocas com led, com água. E o que um aprende vai passando para os outros”, conta Lukas Schultheiss, coordenador de desfiles da UESM, fundada pelo executivo e carnavalesco Marco Antônio Ferreira.

Um desfile de maquetes pode custar de R$ 50 até R$ 1.000, sem enredo patrocinado.

São sete quesitos: Comissão de Frente, Conjunto, Fantasias, Alegorias e Adereços, Enredo, Mestre-Sala e Porta-Bandeira e Evolução. As notas vão de 8,0 a 10.

Porta-bandeira da Império de Ouro Branco

Técnicas de animação

Você deve estar se perguntando como são as apresentações de Comissão de Frente e casal, ou como se julga Evolução.

No caso de comissão e casal, as escolas fazem coreografias com os bonecos, animadas com a técnica stop-motion. Para mestre-sala e porta-bandeira, repete-se apresentações de casais famosos de escolas reais. Isso permite que se homenageie os salgueirenses Sidclei e Marcella usando os mesmos passos que o casal usou no desfile na Sapucaí.

À frente da bateria, há também uma rainha, como nos desfiles reais. E elas são versões em boneca de componentes de verdade – como Sabrina Pereira, da Ouro Branco.

Bateria da Ouro Branco com a rainha dos ritmistas, Sabrina Pereira, com a fantasia “O fim de Cleópatra”

Já em Evolução, as semelhanças com o julgamento das escolas reais é semelhante: verifica-se que as alas não estão muito espaçadas, por exemplo. Mas os jurados devem ver se há desequilíbrio no tempo usado para exibir alas e carros. Se uma escola mostra o abre-alas por muito tempo e passa rapidamente pelas baianas, o julgador pode “canetar”. O trabalho do editor, nesse caso, lembra o de um diretor de harmonia.

Penalidades

Cada escola deve apresentar no mínimo quatro alegorias no Especial. Os carros tem tamanho mínimo, mas a ideia é deixar as dimensões livres para os carnavalescos abusarem da criatividade.

“Pelo regulamento, o mínimo é de 15 centímetros de comprimento. Mas a maioria tem acima de 40. Este ano tivemos uma alegoria de 1,20m de comprimento e 1,30m de altura na Império Estação Primeira da Alegria, que falou sobre a violência contra as crianças. A largura é livre, para estimular a criatividade dos carnavalescos em buscar formatos diferentes do convencional”, explica Schultheiss.

Componentes da Unidos do Tijucano na “concentração”

O tempo mínimo de desfile – no caso, do vídeo – é de 20 minutos no especial, com máximo de 30 minutos, para a apresentação de 200 componentes ou mais – algumas já usaram mil bonecos. Se alguma escola estourar esse limite, é penalizada. O regulamento, inclusive, prevê uma série de penalidades para as escolas que desrespeitarem as regras.

A Carcará do Samba, do acesso, perdeu 0,1 porque apresentou uma ala a menos do que o mínimo, e consequentemente mais 1,2 pela falta dos componentes nesta ala e outros 0,5 por ausência de velha-guarda, que estava prevista no roteiro – problema semelhante ao que causou a polêmica divisão do título entre Mocidade e Portela. Até agora, no entanto, não houve recursos por parte da escola. Ou talvez seja melhor esperar a divulgação das justificativas.

Set de filmagem do desfile da Unidos do Tijucano

“Orgulho”

As pessoas que criam as escolas de maquete também trabalham em barracões reais, ou pelo menos sonham com uma chance. Algumas já foram chamadas para participar em agremiações menores do Rio e São Paulo, motivo de orgulho para Schultheiss. Isso depois de vencerem uma barreira.

“No início tivemos muitos casos de pessoas terem vergonha de dizer que tinham feito, ou que eram carnavalescos, por conta do preconceito com quem faz carnaval ou com quem faz artes manuais. Mas, acabou. Agora as pessoas têm orgulho, as famílias têm orgulho”, conta.

Sobre o autor

Romulo Tesi

Romulo Tesi

Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Aluisio Machado, Beto Sem Braço e Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

1 Comentário

  • Muito orgulho de fazer parte desse projeto que cada vez ganha mais reconhecimento! Sou um apaixonado por todo esse trabalho minucioso das escolas de samba de maquete. Parabéns UESM por abrir espaço para tantos artistas do samba!

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