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Morre Dominguinhos do Estácio, uma das maiores vozes do Carnaval, aos 79 anos

Dominguinhos do Estácio
Dominguinhos do Estácio – Reprodução/Instagram

O samba perdeu uma de suas maiores vozes: o cantor Dominguinhos do Estácio morreu neste domingo, 30, aos 79 anos. O artista sofreu uma hemorragia cerebral e estava internado desde o último dia 11 no Hospital Azevedo Lima, em Niterói. O intérprete foi submetido a uma cirurgia de emergência e chegou a ser intubado para melhorar quadro respiratório, mas não resistiu.

A informação foi divulgada pela equipe do intérprete, em seus perfis nas redes sociais.

“É com muita tristeza que viemos através dessa rede social comunicar o falecimento do nosso querido mestre, Dominguinhos do Estácio. O mesmo seguia internado desde o dia 11 de maio em decorrência de complicações em seu quadro de saúde e na noite do dia 30 o cantor e intérprete Dominguinhos do Estácio veio a óbito. Que nossa senhora de Nazaré o receba de braços abertos. Desejamos nossos pêsames a todos os amigos e familiares”, publicou o perfil do cantor no Instagram.

Em 2020, Dominguinhos sofreu um infarto logo depois do desfile da Viradouro e foi levado do Sambódromo para o hospital. A escola se sagraria campeã do Carnaval.

“Por 11 anos, Dominguinhos foi o intérprete oficial da Viradouro, e emocionou milhões de corações. Sua voz inconfundível e seu carisma cativaram nossa comunidade, criando uma relação única e especial, que ficará para sempre na história do samba e da Viradouro. É com imenso pesar que a Viradouro se despede hoje de um dos maiores intérpretes do carnaval. Descanse em paz, Dominguinhos”, lamentou a Viradouro.

Dominguinhos é protagonista em alguns dos momentos mais marcantes da história do Carnaval, eternizando a voz em sambas e desfiles célebres, que cruzaram a avenida e ganharam vida própria para além da dispersão. Tornou-se o ídolo de uma geração.

Foi o cantor de clássicos absolutos, músicas imortais da coleção de grandes trilhas do país, como “Liberdade, Liberdade”, da Imperatriz Leopoldinense, para ficar em um exemplo emblemático.

Dono de um estilo próprio, Dominguinhos aliava técnica, potência e um pegada de “animador”, sempre convidando o público a participar do desfile, motivando os componentes com gritos de guerra e cacos bem colocados. Participativo, alertava até a harmonia da escola, quando preciso. Em um desses momento, enfiou um aviso “olha o buraco!” entre um verso e outro do samba da Estácio de Sá em 1994.

A escola é o berço de Dominguinhos – nascido Domingos da Costa Ferreira, em 4 de agosto de 1941 -, onde começou quando a escola ainda se chamava Unidos do São Carlos, da comunidade de mesmo nome de onde o cantor cresceu. Daí o nome, que tem mais a ver com o bairro, na região central do Rio de Janeiro, do que com a agremiação propriamente.

Na mesma região da cidade, cantou no bloco Bafo da Onça, referência de Carnaval de rua no Brasil, um dos maiores da história e berço de outros nomes da música, como Osvaldo Nunes.

Ouça a playlist com sambas defendidos por Dominguinhos do Estácio (seleção: Juliana Joannou):

A primeira passagem pela São Carlos se encerrou em 1977. No ano seguinte, mudou-se para a então emergente Imperatriz Leopoldinense. Em Ramos, faturou o primeiro título, em 1980, dividido com mais duas escolas: Beija-Flor e Portela.

No ano seguinte, na mesma Imperatriz, veio enfim a consagração, ao triunfar cantando o “hit” “O Teu Cabelo Não Nega (Só Dá Lalá)”, sobre Lamartine Babo. Dominguinhos ajudou a Imperatriz a ganhar o primeiro campeonato sozinho cantando um dos maiores sucessos já produzidos pelo Carnaval.

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De volta ao São Carlos no período entre 1984 e 1988, já como Estácio de Sá, esteve no primeiro desfile do Sambódromo da Marquês de Sapucaí. Defendeu o cultuado “Chora, Chorões” (1985) e o sucesso “Ti-ti-ti do sapoti” (1987), que também assina como um dos autores.

Dominguinhos retornou à Imperatriz em 1989, quando escreve definitivamente seu nome entre os maiores do Carnaval com o título em um Carnaval histórico, considerado o maior de todos. Para vencer, a escola de Ramos superou o inovador “Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia”, da Beija-Flor. O que pesou no julgamento foi justamente o samba defendido por Dominguinhos.

Se o “Cristo Mendigo” de Joãosinho Trinta se tornou a imagem de 1989, o samba da Imperatriz é o som. E lá está a voz de Dominguinhos.

Dominguinhos esteve dois anos na Grande Rio, quando a escola de Duque de Caxias ainda surgia, em 1990 e 1991.

Na sua terceira passagem pela Estácio finalmente veio o título. Em 1992, a escola, com mais um samba marcante cantado por Dominguinhos, supero a favorita e atual bicampeã Mocidade Independente de Padre Miguel. O campeonato abriu uma era de forte popularidade da escola, com ensaios concorridos e desfiles com número de desfilantes às vezes acima do que o bom senso pedia.

O auge dessa época foi em 1995, quando a escola desfilou com o enredo sobre o centenário do Flamengo.

Em 1996, voltou à Imperatriz como apoio no carro de som e autor do belo samba sobre a imperatriz Leopoldina.

No ano seguinte, transferiu-se para a Viradouro. A escola de Niterói, que tentava se firmar entre as grandes turbinada por altos investimentos, enfim faturou o título com “Trevas! Luz! A explosão do universo”. O desfile, assinado por Joãosinho Trinta, foi embalado por um samba que tinha uma inovação recebida com certa reticência pelos mais puristas, por causa de uma batida funk criada pelo Mestre Jorjão.

Em 1998, com a Viradouro defendendo o título e superfavorita, o título não veio. Mas o desfile, “Orfeu, o Negro do Carnaval”, ficou marcado pela emoção que causou na Sapucaí, no que é considerado por muitos a maior apresentação de Dominguinhos e uma das melhores de toda história.

Dominguinhos permaneceu na Viradouro até 2007. Depois passou por Inocentes de Belford Roxo em 2009 e, no seguinte, retorna à Imperatriz para mais quatro desfiles. Por fim, defende o microfone da Estácio em mais dois anos: 2014 e 2015. A partir daí passa a fazer apenas participações em gravações e desfilar fora do carro de som.

O cantor ganhou o Estandarte de Ouro três vezes: duas como cantor, em 1984 e 2000, e uma como melhor samba, em 1996.

Dominguinhos também teve carreira fora da avenida, com nove álbuns solo gravados. O sambista ainda participou dos grupos Exporta Samba e Puxadores de Samba, com Wantuir, Preto Jóia, Jackson Martins e Serginho do Porto – todos intérpretes.

Romulo Tesi

Romulo Tesi Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Aluisio Machado, Beto Sem Braço e Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

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