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Filho preocupado, esposa atenta e choro: o dia de Arlindo Cruz até a homenagem no Anhembi

Arlindo Cruz na X-9 Paulistana: machado de Xangô e bandeira do Império Serrano – Aloisio Mauircio/Fotoarena/Estadão Conteúfo

“Bora, pai!”

O grito do filho para Arlindo Cruz passou por cima do barulho dos motores das empilhadeiras e caixas de som do Anhembi para chegar ao sambista, homenageado pela X-9 Paulistana nesta sexta-feira, primeiro dia de desfiles das escolas de samba de São Paulo.

Era o fim de uma jornada que começou no Rio de Janeiro, cheia de incertezas e idas e vindas, dessas que não raro acabam em samba. Como foi o caso da presença de Arlindo no Sambódromo paulistano.

A sexta começou com uma certeza: o homenageado não participaria do desfile. A família chegou a anunciar – e lamentar – anteriormente a ausência do artista, dada a dificuldade em viabilizar todo o aparato médico e de transporte na tumultuada Zona Norte de São Paulo. Os fãs viram ao menos, pelo Instagram, Arlindo com a roupa que usaria no desfile: um terno todo branco.

Durante o dia, porém, a esposa, Babi, percebeu que o marido não estava satisfeito com a situação.

“É uma coisa dela com ele, difícil de explicar”, disse ao Setor 1 uma pessoa próxima ao compositor, que pediu para não ser identificada.

Os médicos haviam liberado, mas não havia consenso no próprio “staff” do artista se valeria a pena pegar um avião e se deslocar para São Paulo. Arlindo ainda se recupera de um AVC, sofrido há dois anos, que o deixou com sequelas importantes.

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“Confesso que fui contra algumas vezes, por precaução, por medo, por amar meu pai. Ele chegou a reclamar, mostrar insatisfação, e minha mãe lutou para que isso acontecesse”, revelou Arlindinho, com os olhos marejados, em entrevista exclusiva ao blog.

Se o homenageado não estava satisfeito, era preciso agir. Ambulância, transporte, hotel: tudo foi arranjado. E família, amigos e profissionais que trabalham com Arlindo embarcaram para São Paulo, numa noite em que o Rio foi castigado por mais um temporal de proporções bíblicas, que chegou a alagar a Marquês de Sapucaí.

“Ele não vinha mesmo, e foi tudo decidido praticamente nas últimas horas”, contou a mesma fonte próxima de Arlindo.

Por volta das 4h20 da madrugada de sábado, enquanto a Acadêmicos do Tatuapé ainda terminava de entrar na avenida, uma ambulância estacionou perto do último carro alegórico da X-9.

Rapidamente, dezenas de pessoas, entre jornalistas, curiosos e fãs, cercaram o veículo, para desespero dos membros da escola. Integrantes da Harmonia da X-9 tentavam, em vão, evitar que se fotografassem ou filmassem a estrela da noite. Com lágrimas nos olhos, muitos simplesmente ignoraram a ordem.

As portas abriram e, sem tumulto, Arlindo saiu de cadeira de rodas direto para uma empilhadeira, e dela para a alegoria.

Ao seu lado, a esposa, a filha Flora e enfermeiros. Fora os numerosos componentes do carro, incluindo destaques com volumosas fantasias, que em alguns momentos no desfile impediram que Arlindo fosse visto. Coisas do Carnaval.

“Ele tinha que vir, pra ver a escola vibrando por ele, para ele mostrar que o milagre está acontecendo. Ele ainda não está do jeito que a gente sonha, mas já interage, já chora, entende tudo que está acontecendo. Ele queria vir. E se era a vontade dele…”, contou o filho.

Já no carro, Arlindo recebeu um machado de Xangô e uma bandeira do Império Serrano. O show, enfim, pôde continuar.


Romulo Tesi

Romulo Tesi Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Aluisio Machado, Beto Sem Braço e Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

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