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Morre Monarco, baluarte da Portela, aos 88 anos

Monarco (1933 – 2021) – Divulgação/Portela

Um dos maiores nomes da música brasileira, Hildemar Diniz, o Monarco, morreu neste sábado (11), no Rio de Janeiro, aos 88 anos.

Monarco estava internado no hospital federal Cardoso Fontes, em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio, desde novembro. Recentemente o sambista foi submetido a uma cirurgia no intestino, mas não resistiu às complicações, informou a Portela

O velório do corpo do Monarco será neste domingo (12) na quadra da Portela (Rua Clara Nunes, 81 – Madureira), a partir das 11h.

O enterro será no Cemitério de Inhaúma; o horário ainda não foi divulgado.

“O presidente Luis Carlos Magalhães, o vice-presidente Fábio Pavão, a Velha Guarda Show da Portela, a Galeria da Velha Guarda e toda a diretoria da Majestade do Samba lamentam o falecimento e se solidarizam com os familiares, amigos e fãs”, publicou a escola.

Baluarte da Portela, membro da Velha Guarda da escola e presidente de honra da agremiação de Madureira, Monarco está no panteão dos grandes sambistas de toda história: defensor do gênero, carregou a bandeira do samba durante praticamente toda a vida, compondo e cantando clássicos absolutos como “Vai Vadiar”, “Coração em Desalinho”, “Passado de Glória” e muitas outras obras eternas.

“Os versos cantados por Dona Ivone Lara na despedida de Silas de Oliveira na canção ‘Adeus de um poeta’ bem cabem ao sentimento que o mundo do samba sente agora. ‘Por nós tu não terias ido agora/ É doloroso/ Todo o samba chora (…)/ É triste mas foi mais um bamba/ Que o mundo do samba Perdeu!’, publicou a Portela nas redes sociais.

Monarco nasceu em 17 de agosto de 1933, e cresceu no bairro de Cavalcante, na zona norte do Rio. Precoce, começou a compor aos 11 anos. Mudou-se adolescente para Oswaldo Cruz, e ingressou na Ala de Compositores da Portela em 1950, aos 17 anos, levado pelo parceiro Alcides Malandro Histórico.

Na escola, conheceu e se tornou discípulo e parceiro de Paulo da Portela, fundador da agremiação. Assim, as histórias do sambista e da agremiação se misturaram, tornando-se impossível contar uma trajetória sem falar da outra.

A música e a poesia me adotaram em Oswaldo Cruz e ainda me deixaram ser parceiro

Monarco

Mais antigo membro da Velha Guarda da Portela, Monarco ajudou a colocar o grupo na elite da cultura brasileira, responsáveis por guardar uma tradição quase centenária – a Azul e Branco completará 100 anos em 2023.

Entre Paulo e Paulinho, Monarco

Em 1970, gravou com a Velha Guarda o disco “Portela passado de glória”. Produzido por Paulinho da Viola, o álbum é um clássico do samba.

“Monarco foi uma voz e uma consciência que ajudou a escrever a história da Portela e do samba por mais de 60 anos. Um grande artista e uma grande figura, com o coração do tamanho de um talento de valor imensurável. Perdemos hoje um grande baluarte”, escreveu Paulinho da Viola neste sábado.

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Paulinho foi, inclusive, uma das “pontas” da história da Portela resumida por Monarco e Chico Santana no samba “De Paulo a Paulinho”, em que exaltava “o passado e o presente da nossa querida Portela”, começando por Paulo da Portela.

Antigamente era Paulo da Portela
Agora é Paulinho da Viola
Paulo da Portela, nosso professor
Paulinho da Viola, o seu sucessor

“De Paulo a Paulinho”, de Monarco e Chico Santana

Em 1999, porém, a consagração midiática veio com o álbum “Tudo Azul”, com Marisa Monte como madrinha, seguido do aclamado documentário “O Mistério do Samba”.

Em 2012, lançou “Passado de Glória – Monarco 80 anos”, álbum que valeu o título de “Melhor Álbum de Samba” no Prêmio da Música Brasileira. Em 2019 foi indicado ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Samba/Pagode com “De Todos os Tempos”.

Em 2013, Monarco ajudou a inspirar a mudança na gestão da Portela, com o fim da problemática gestão do presidente Nilo Figueiredo e vitória nas eleições do grupo Portela Verdade. Na ocasião, Monarco se tornou presidente de honra da agremiação.

No Carnaval daquele, antes das mudanças políticas, Monarco admitiu, em entrevista ao Bandfolia, que a Portela não vivia um grande momento. Mas mantinha o brio.

“A Portela tem sua força, tem tradição. Mesmo machucada, consegue reagir. Sempre foi assim. O Candeia já dizia: ‘a Portela está acima do ganhar ou perder. Todos respeitam essa escola. Quando entra na avenida, os portelenses levam ela no colo”, disse, sempre altivo, uma das marcas da sua personalidade.

“Nesta sexta-feira, 10, Monarco foi homenageado durante a inauguração da Sala de Troféus da Portela, que leva seu nome. Sua última apresentação em público foi onde mais gostava de cantar, em casa, na quadra da Majestade do Samba!”, lembrou a Portela.

Monarco no Dia Nacional do Samba no Parque Madureira, em 2012. Foto: Alexandre Macieira/Riotur

Homenageado diversas vezes, por várias escolas, principalmente nos anos 2010, chegou a ser enredo da Lins Imperial em 2017. Dois anos antes, foi tema do desfile da União do Parque Curicica junto de Martinho da Vila e Arlindo Cruz. Na ocasião, declarou:

“Fico feliz de receber minhas flores em vida”

Monarco, citando o mangueirense Nelson Cavaquinho
“Lenço”, gravada por Paulinho da Viola, composta por Monarco e Chico Santana

Jacarezinho

Apesar de nunca ter emplacado um samba de enredo na Portela, Monarco venceu quatro disputas no Unidos do Jacarezinho, escola da zona norte do Rio. Na agremiação, o sambista assina quatro obras: “Exaltação a Frei Caneca” (Unidos do Jacarezinho/1967); “Exaltação à cultura nacional” (Jacarezinho/1968); “A história de Vila Rica do Pilar” (Jacarezinho/1969); “Geraldo Pereira, eterna glória do samba” (Jacarezinho/1982). (Sambario)

Ainda no Jacarezinho, foi enredo da escola em 2005, com “Monarco: voz e memória do samba, um passado de glória”.

Homenagens

Intérprete de vários sambas de Monarco, Zeca Pagodinho lamentou a morte do mestre. “A Portela está triste. O mundo do samba está triste”, disse o sambista.

O Império Serrano, “vizinho” de bairro da Portela, desejou “força aos familiares, amigos, fãs e admiradores do seu eterno legado para a cultura popular”.

A portelense Teresa Cristina disse que Monarco a ensinou, acolheu e incentivou.

A Mangueira publicou que Monarco deixará uma “lacuna irreparável”.

Martinho da Vila disse que perdeu um “grande amigo”.

Romulo Tesi

Romulo Tesi Jornalista carioca, criado na Penha, residente em São Paulo desde 2009 e pai da Malu. Nasci meses antes do Bumbum Paticumbum Prugurundum imperiano de Aluisio Machado, Beto Sem Braço e Rosa Magalhães, em um dia de Vasco x Flamengo, num hospital das Cinco Bocas de Olaria, pertinho da Rua Bariri e a uma caminhada do Cacique de Ramos, do outro lado da linha do trem. Por aí virei gente. E aqui é o meu, o nosso espaço para falar de samba e Carnaval.

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